Entorno do DF

Lêda Borges: “Entorno do Distrito Federal será o 2º maior corredor econômico do Estado”

Parte do primeiro escalão do governo estadual, a ex-prefeita de Valparaíso diz que, se chamada para ser candidata à vice de José Eliton nas eleições de 2018, está “pronta para servir”

JORNAL OPÇÃO/FOTO: RENAN ACCIOLY – 20/02/2016 – 23:39:37

Lêda Borges é um dos nomes fortes do governo Marconi Perillo. Ex-prefeita de Valparaíso e deputada estadual licenciada, a presidente do PSDB Mulher ocupa uma das três chamadas supersecretarias criadas pelo governador na última reforma administrativa, a Secretaria da Mulher, Desenvolvimento Social, Igualdade Racial, Desenvolvimento Humano e Trabalho — a Secretaria Cidadã.

Para ela, isso é mais que uma mensagem de aceitação de seu nome; trata-se de uma mensagem de prestígio para uma das maiores regiões do Estado: o Entorno do Distrito Federal (DF), região a qual representa. “Isso é uma mensagem muito importante para mim e para o Entorno, pois diz que lá tem gente competente. Afinal, eu sou a única secretária que veio do interior e sou do Entorno”, afirma.

Nesta entrevista ao Jornal Opção, Lêda comenta a atual situação de sua região e diz que está no governo para trabalhar por ela e por suas necessidades. “Como secretária, eu tenho como desempenhar os dois papéis ao mesmo tempo: o do pleito, como deputada, e o da efetivação, como secretária. Despacho com o governador como auxiliar, como política e como deputada”.

Apontada como possível candidata a vice-governadora na chapa governista nas eleições estaduais de 2018, Lêda diz que está no projeto do governador Marconi, sabendo que José Eliton é o candidato e aponta: “Faço o que me couber dentro desse projeto, pois acredito nele”.

Cezar Santos – A sra. assumiu uma das chamadas supersecretarias na reforma administrativa que o governador Marconi Perillo (PSDB) fez. Qual o balanço no primeiro ano de trabalho?

Faço um balanço muito positivo. Mesmo com todo o ajuste fiscal — junção de pastas e diminuição dos cargos em comissão, extinguindo 5 mil cargos —, os programas não foram extintos. Isso demonstra a visão do governador como um gestor que se pauta pelo equilíbrio fiscal, mas sem se esquecer do lado social. Isso é fundamental e mostra que há o lado racional e o lado humano e social no governo. O poder público não vende serviço, não tem lucro e, às vezes, quando há a necessidade de fazer um ajuste fiscal, uma das primeiras coisas que se pensa é enxugar as pastas em que não há obrigação de investimento constitucional, como saúde e educação. E isso geralmente é feito extinguindo programas ou reduzindo pessoal. O governador Marconi Perillo não fez isso, mas estabeleceu metas para todas as pastas, incluindo a nossa. Isso foi extremamente positivo em 2015.

Cezar Santos – O que foi mais relevante em relação aos programas executados?

Nossa pasta tem muitos convênios com a União, na áreas da Justiça e cidadania, de direitos humanos e de trabalho, como o Sine [Sistema Nacional de Em­prego]. No ano passado nós lidamos com um orçamento da ordem de R$ 300 milhões, entre recursos federais e contrapartidas estaduais. E executamos programas na área da mulher, com convênios com a SPM [Secretaria de Políticas para as Mulheres, órgão do Ministério da Cidadania] e com o Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA), capacitando e levando empoderamento à mulher, capacitando e implementando os Neams, que são os núcleos de atendimento à mulher no interior.

Também tivemos ações com o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), com os programas do Bolsa Família (federal) e Renda Cidadã (estadual), além do monitoramento de assistência social nos municípios pelos Cras [Centro de Referência de Assis­tência Social] e pelos Cres [Centro de Referência Especializado de Assistência Social].

Na área de trabalho, atuamos na captação de vagas para o Sine e no encaminhamento dos candidatos ao emprego. Ofertamos muitas frentes, atuando também na inclusão pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Na área da igualdade racial, pudemos atender os quilombolas com moradia, com capacitação, acompanhamento nas festas, propiciando mais estrutura física para isso em lugares como o Vão de Almas, Vão de Moleque e Engenho, nos municípios de Teresina de Goiás e Cavalcante. Levamos a eles o Renda Cidadã. Também tivemos o projeto do cartório nas maternidades. Enfim, são ações cidadãs que ficam muito no silêncio, mas que são fundamentais para a população.

Temos desenvolvido nossas metas em cima de três pilares: a inclusão, a tutela permanente ou transitória do Estado, a capacitação, qualificação e o emprego. Nossa pasta atua em tudo isso, por isso a chamo de Secretaria Cidadã.

Frederico Vitor – A sra. cita os convênios e fala em muitas parcerias. Existe predisposição por parte dos prefeitos para isso?

Os gestores municipais ficam ávidos por dois tipos de ação: obras e cidadania. O ano passado foi muito difícil no Brasil, um ano em que o ajuste fiscal teve de acontecer para que pudéssemos avançar neste ano, enfrentando anos difíceis. Nes­se quadro, as obras se tornaram mais difíceis porque os recursos es­cas­searam. E aí, o que vale? Vale o suporte que nós damos na cidadania. Temos o programa Renda Cidadã, o programa do Pão e Leite, o programa da Água e Energia, o programa Jovem Cidadão. Quando nós chegamos com esses programas, significa que o Estado chegou nos municípios, com toda a sua ca­pacidade cidadã. Eu já fui prefeita e sei que os prefeitos querem ver o Es­tado presente com as parcerias possíveis, mesmo num momento difícil.

Frederico Vitor – Goiás é grande e possui diferenças regionais no as­pecto econômico. Pensando nisso, a secretaria fez algum estudo para saber o que levar para cada lugar?

Temos um estudo anterior à gestão, que define as regiões em relação ao IDH [Índice de Desenvol­vimento Humano] e pauta o planejamento do Estado. Dentro desse estudo, estão definidas as cidades com o menor IDH. Isso nos pauta. No ano passado avançamos com o Instituto Mauro Borges (IMB) porque os índices de vulnerabilidade poderiam permear a aplicação dos programas socais. Solicitamos ao IMB, no início do ano passado, o estudo de vulnerabilidade social e juvenil para pautar tanto a entrega do programa Renda Cidadã nos municípios, quanto o Jovem Cidadão para o público com vulnerabilidade social. A ação da pasta é pautada por esses dois índices definidos por estudo do IMB.

O Ação Cidadã, por exemplo, esteve em 22 municípios no ano passado, em grande parte na região Nordeste, principalmente com os quilombolas. E fizemos quase todas as cidades do Entorno.

Cezar Santos – Em Cavalcante, houve problemas gravíssimos de abusos sexuais contra crianças e adolescentes, o que é um dos motivadores de uma CPI na As­sembleia Legislativa. Sua pasta está interferindo naquela situação? Como é o trabalho?

Existe uma superintendência executiva específica para mulher e igualdade racial, que está ligada à nossa pasta e que dá os apoios. Aquela questão já está judicializada. Nós somos os recebedores das denúncias e temos um observatório dentro do Crei [Centro de Refe­rência Estadual da Igualdade], que acompanha todos esses movimentos, sejam de discriminação, de abusos ou qualquer crime relacionado à mulher, aos negros, aos índios e aos ciganos. Recebidas as denúncias, temos a obrigação de encaminhá-las ao Ministério Público, que as encaminha ao Judiciário. Todos os problemas em Cavalcante já estavam judicializados.

Nosso trabalho prévio junto a essa comunidade é dar a essas mulheres e meninas o empoderamento por meio dos programas sociais. Alega-se ali que elas vão para a cidade para ganhar dinheiro, porque onde estão não há condições de sobrevivência. Elas vão para a cidade, onde acontecem os problemas. Então, nós entramos com o programa Jovem Cidadão, com orientação para os Cras, que existem em todos os municípios. Aonde há os Cres, damos treinamento para que acompanhem a comunidade local. Levamos o Ação Cidadã, com cursos para que essas jo­vens aprendam a lidar com a beleza delas em oficinas, que elevam a autoestima e possibilitam que elas aprendam a ganhar dinheiro na comunidade mesmo, de forma a não ser preciso ir para a cidade.

Aquelas comunidades têm suas festas tradicionais e nossa equipe se desloca para acompanhá-las, fazendo rodas de conversa, orientando nas questões sexuais, de violência etc. Sobre isso, neste ano fechamos um convênio com o Sebrae, no valor de R$ 6 milhões, para capacitar todas essas comunidades que têm baixo IDH, para montarmos cooperativas e associações e dar melhor condições de trabalho a essas pessoas, para que elas se auto sustentem e se empoderem, principalmente as mulheres. É um trabalho preventivo. Temos unidades móveis, que vão ao campo e à floresta com advogados, com assistente social e psicólogo. Há mulheres no campo que não sabem nem a quem relatar o que elas têm sofrido. Temos também um dos grupos mais respeitados do Brasil e que trata do combate ao tráfico de pessoas.

Cezar Santos – Qual a estrutura de sua pasta?

Temos uma estrutura organizacional muito inteligente, com todos os programas sociais para atender a todas as minorias. Antes isso era muito difícil, pelos entraves, já que o assunto estava espalhado em várias pastas. Hoje se planeja desde a entrada, que é a vulnerabilidade, seja social, juvenil, econômica, de idade, do deficiente, até a saída, que é o trabalho.

O tema mulher e igualdade estão juntos numa superintendência executiva (supex). Assis­tência social também tem uma supex, o tema direitos humanos em outra e o tema trabalho em outra. Então, com o superintendente de gestão, planejamento e fi­nanças, que gere tudo, temos quatro superintendências executivas. É um modelo inteligente, que o governo federal copiou. Submetidas às superintendências estão as gerências. Essa é a estrutura organizacional.

Na estrutura física não temos um espaço próprio, mas funcionamos em espaços cedidos, já que não caberia tudo no Palácio Pedro Ludovico. São 2,5 mil servidores, porque suprimiram-se 700 cargos, o que gerou economia de mais de R$ 20 milhões no ano passado. Acredito que, em termos físicos, a nossa pasta é a maior só perdendo para a Educação, se contar as escolas estaduais. Em gestão direta temos o prédio do Basileu França, no Setor Universitário, o prédio na Av. Anhanguera, o prédio do Crer, além de dez unidades socioeducativas pelo estado afora.

Cezar Santos – Pode-se dizer que o carro-chefe da pasta é o programa Ação Cidadã?

No Ação Cidadã temos todos os serviços que desenvolvemos na pasta durante todo o ano. Ele leva mais de 20 serviços às comunidades.

Cezar Santos – Qual é a diferença com o programa Governo Junto de Você, gerido pela Secretaria de Governo?

Houve esse questionamento sobre uma certa duplicidade. O Governo Junto de Você chega a municípios de médio porte, polos regionais, que conseguem receber sua estrutura. Tanto que se fazem dez edições, quando muito, por ano — no ano passado foram cinco. O nosso programa tem outro foco: o dos pequenos municípios, dos mais distantes. Fomos, por exemplo, a Campos Belos, a 600 quilômetros da capital, assim como a Teresina de Goiás, a Cavalcante e a Monte Ale­gre. Vamos aos pequeninos, de até 30 mil habitantes, e que não têm Va­pt Vupt. Imagine viajar de Rubia­taba até qualquer cidade polo para fazer apenas uma carteira de trabalho.

Cezar Santos – Quantos atendimentos são feitos pelo programa?

Foram 155 mil atendimentos no ano passado, em 22 municípios, com média de mais de 30% da população de cada um deles passando por algum tipo de serviço. É uma experiência fantástica de gestão, porque envolve todos os moradores do lugar e levamos não só o que diz respeito à nossa pasta: há também serviços de saúde, de fomento, a parceria com o Sesi e o Sebrae, que agora vai conosco em um projeto pioneiro de capacitação.

Frederico Vitor – Podemos dizer que esse projeto seria uma espécie de porta de saída do programa Renda Cidadã?

Sim, sem dúvida. O Renda Cidadã vem com uma nova roupagem este ano e será lançado em março. É um sistema informatizado, de ponta, que vai trazer critérios de inserção e exclusão automáticos.

Cezar Santos – E que cursos serão oferecidos em conjunto com o Sebrae?

Ainda não formatamos essa modelagem. O convênio está firmado e já captamos R$ 6 milhões do governo federal. Vamos capacitar e também mostrar ao microempreendedor a necessidade de inovar. Muitas vezes, exatamente por não buscar a inovação, o empresário acaba por fechar as portas.

Cezar Santos – A sra. diz que participou de várias reuniões em Brasília e que o governo federal copiou algumas ações de Goiás. Como assim?

O governador Marconi anteviu a crise. Teve sensibilidade e habilidade impressionantes. Ao ser reeleito e prever a crise que viria, nem esperou tomar posse para o segundo mandato para começar a trabalhar. Quem não fez o dever de casa hoje não dá conta de pagar a folha. Lembro-me de que estava com o governador em Brasília, para resolver uma questão do transporte público do Entorno com a ANTT [Agência Nacional de Transporte Terrestre]. Foi pouco antes de uma viagem que ele fez à Alemanha. Então, me mostrou: “A reforma está aqui”.

Ano passado, quando eu me tornei sua auxiliar direta, tudo já tinha virado lei, os cargos já extintos. Isso é ter coragem para fazer o que deve ser feito. Fomos criticados e os movimentos ligados às minorias reclamaram do fim de secretarias. Eles entendem que precisa ter uma pasta para olhar por aquele tema. Eu não compreendo assim, mas a­cho que o necessário é ter vontade po­lítica para realizar. E é a mesma forma como o governador Marconi entende.

E nas reuniões em Brasília mostramos como era o nosso novo modelo de gestão organizacional. No final das contas, governador do DF, Rodrigo Rollemberg, também sentiu isso, assim como o governo federal. Só a minha pasta economizou R$ 25 milhões e não deixamos de realizar nada.

Frederico Vitor – Existem parcerias de sua pasta com ONGs?

Temos interlocução direta, entre fundações, institutos e secretarias, com mais de 20 parceiros. Fazemos segunda via de certidão de nascimento e de casamento — esta, por exemplo, custaria R$ 200 e sai de graça, por causa do convênio com a Corregedoria de Justiça do Estado, com o Poder Judiciário. O mesmo para uma investigação de paternidade. Quanto custaria um advogado para um processo assim? Vamos fazer agora um trabalho de ação cidadã nas 15 cidades de maior criminalidade, em parceria com a Secretaria de Segurança Pública.

Frederico Vitor – E como está a interlocução com a Prefeitura de Goiânia?

Muito boa. Eu e Tereza [Beiler, pri­meira-dama] estamos trabalhando em um convênio, já bem adiantado, para a questão do abrigo de mu­lheres. Muitas vezes esquecemos que a população de rua também é cidadã e estamos aderindo a um movimento nacional para prestar serviço a essas pessoas. E isso acontece no município, o Estado capacita, inspeciona, mas quem está na ponta é a esfera municipal. Precisa­mos reconhecer o papel de cada ente.

Cezar Santos – Recentemente, a sra. foi condenada em primeira ins­tân­cia por improbidade administrativa em relação à época em que foi pre­feita de Valparaíso. Esclareça me­lhor a questão. A sra. vai recorrer?

Meus advogados já estão preparando o recurso de apelação por entenderem que a sentença traz muitas inconsistências e uma argumentação contraditória. Portanto, esperamos a reforma da sentença na sua íntegra. E não houve condenação por enriquecimento ilícito ou desvio de verba pública. Na própria sentença, o juiz reconhece que não tem dosimetria para falar de enriquecimento ilícito nem de desvio de recurso público. Na verdade, é questionado que a agência de publicidade, que era contratada licitamente pela prefeitura, havia pagado um jornal e o juiz entendeu que era autopromoção. Portanto, o assunto principal deste processo foi a utilização do jornal para me autopromover. Só que nós nunca pagamos esse jornal com verba pública. Nem a agência nunca pagou.

Cezar Santos – O Entorno possui muitas carências. Atualmente secretária, o que sua pasta tem oferecido para aquela região?

Dos quase 33 mil votos que tive, 22,7 mil foram de minha cidade, 10 mil foram dos demais municípios e os demais de outras localidades, inclusive Goiânia, onde tive cerca de 400 votos. Estar secretária licenciada de meu mandato de deputada tem três grandes simbolismos. O primeiro é o reconhecimento do governador à nossa região — somos apenas dez secretários e ocupo uma das três supersecretarias. Isso é uma mensagem muito importante para mim e para o Entorno, pois diz que lá tem gente competente.

Sou a única secretária do interior e sou do Entorno. É realmente algo emblemático, que nos dá orgulho. Os prefeitos têm esse sentimento e a população também. Como se­cretária, eu tenho como desempenhar os dois papéis ao mes­mo tempo: o do pleito, como de­putada, e o da efetivação, co­mo secretária. Ou seja, eu peço para mim mesma, com a concordância do governador. Não há ninguém entre nós dois. É um caminho bem menor. Não dá para ter noção da efetivação de ações a partir dessa posição. Despacho com o governador como auxiliar, como política e como deputada.

Cezar Santos – Em que isso beneficiou a região, em sentido prático?

Eu posso citar os Itegos – os institutos técnicos estaduais na região; os colégios estaduais; mais uma unidade da UEG [Univer­sidade Estadual de Goiás], em Valparaíso; o restaurante cidadão, também em Val­paraíso, cujos recursos federais eu consegui como prefeita, construí, mas a atual prefeita [Lu­ci­mar Nasci­mento, do PT] não o abriu. O governador bancou agora a abertura do restaurante. Temos também o Hospital de Urgências do Entorno Sul, ainda em Valpa­raíso, que já está com área desapropriada e paga, com 109 mil metros quadrados, ao custo de R$ 22 milhões. Até o fim do governo estará construído.

No Entorno Norte haverá outro hospital de urgências. O planejamento regional da região passa também por unidades do Corpo de Bombeiros para os municípios, porque temos cidades muito populosas. De nossa pasta, especificamente, tivemos o Ação Cidadã indo a todos os municípios.

Por fim, tivemos também a retomada do reabastecimento pela represa de Corumbá, que são 30 anos de água garantidos. O Estado de Goiás já fez o que lhe coube e agora esperamos a parte elétrica, mas esta precisa que a Caesb [empresa de saneamento do governo do DF] execute 20% de sua parte na obra. A adutora está em minha cidade e Goiás já fez toda a ligação da captação, em Corumbá, até Valparaíso. Em 2011, o governador retomou e fez sua parte; agora resta Brasília fazer também.

“União não pode ficar com a maior fatia do bolo”

Cezar Santos – A sra. diria que a região do Entorno, que sempre foi um problema, hoje passou a ser a solução para o desenvolvimento do Estado?

Sempre digo que o governador é sábio. Ele tem consciência de que o Entorno, principalmente sua parte sul, será o segundo maior corredor econômico do Estado, depois de Anápolis.

Cezar Santos – E isso está começando a se realizar?

Sim, e vou dar um dado econômico: o desenvolvimento de Cristalina e de Luziânia. Nós, do Entorno, já somos os grandes municípios para arrecadação deste Estado. E Valparaíso é o corredor do terceiro setor, o de serviços. A BR-040 é nossa vitrine. Temos grandes atacadistas; somente eu levei quatro concessionárias. Pelo shopping de lá passam 600 mil pessoas por mês. Então, somos a 10ª cidade em desenvolvimento do Estado. Falta para nós o BRT e o governo federal cumprir com algumas coisas.

Cezar Santos – A grande carência do Entorno é o BRT?

A água e o BRT.

Frederico Vitor – Alguns políticos do Entorno sempre se demonstraram favoráveis à criação do Estado do Planalto Central. Qual a posição da sra. a respeito?

Acho que o Brasil foi criando municípios demais, por isso sofremos o que estamos passando. Há municípios que vivem praticamente de Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Sem uma vocação econômica e com a arrecadação caindo, isso é muito complicado; as prefeituras não sobrevivem. Por­tanto, acho que isso tudo tem que ser muito bem pensado, não apenas de uma forma política. Temos que pensar de uma forma técnica. Por quê? Ouvir isso é muito bom, pois quem mora naquela região como eu, sempre achou boa a ideia de ter serviços como os de Brasília, mas esquece que estamos no Estado de Goiás, não numa unidade da federação administrativa que recebe recursos como se fosse município e como se fosse Estado. O cidadão comum não tem essa percepção e esse entendimento racional de entender porque Brasília é do jeito que é. Ele está sentindo na pele a falta de serviços como o de iluminação, de saúde, da rua recapeada e do serviço de saneamento básico. Ele não percebe que Brasília recebe, somente do Fundo Constitucional do Distrito Federal, cerca de R$ 14 bilhões. E que nós não temos Fundo Constitucional. Eu sou favorável e luto pelo fundo da Região Integrada de Desenvol­vimento do Distrito Federal e Entorno (Ride). Mas a Ride, sem fundo, não adianta. Perguntaram-me do Correio Braziliense o que eu achava do fundo da Ride. Daí respondi: por que Brasília não devolve o quadrilátero que é de Goiás? O que Brasília nos pagou? Então, devolva a nós e façamos de Brasília um município e capital do Brasil. Nosso Fundo Constitucional, da Ride, é legitimo, mas não é legal. É legítimo porque somos nós que levamos força de trabalho para Brasília. Então, não se trata apenas de discutir a criação do Estado do Planalto Central, que vai reunir cidades satélites problemáticas com outras em pleno desenvolvimento.

Frederico Vitor – A sra. observa alguma movimentação dos parlamentares no sentido de criar o Fundo Constitucional da Ride?

Eu já pedi muito para eles discutirem essa emenda na reunião que nós fazemos com a bancada. Sou a única deputada eleita pelo chapão. Quando nós nos reunimos, peço para a aprovação da lei. Não quero deixar de ser goiana. Acho que é ruim nós goianos, da região do Entorno, não nos reconhecermos como goianos. Quando prefeita, sempre busquei essa identidade com Goiás. Sempre que posso levo o governador e digo que o que tem lá é do Estado de Goiás, mesmo porque Brasília não pode conveniar conosco. Quando José Roberto Arruda era governador, ele foi impedido de conveniar conosco porque não havia entendimento entre os Tribunais de contas. Nós prestamos contas com o primeiro recurso que veio da saúde, que era de R$ 300 mil e ponto. Não se falou mais. Por isso, precisamos lutar e trabalhar politicamente para que o fundo exista. Do mesmo jeito que Brasília nos atende, nós também atendemos Brasília. Dou exemplo de Valparaíso e Novo Gama; nosso limite é uma rua. Quem coleta o lixo? Nós. Onde os meninos estudam? Na nossa escola. Para onde vão os doentes? Para o nosso posto de saúde. Temos que chegar ao comum acordo de que precisamos de um fundo, por menor que seja. O Consórcio de Resíduos Sólidos tem que vingar. O único político da atualidade que investiu no Entorno foi Marconi Perillo. Por isso acredito no governo dele. Por isso estou no governo.

Cezar Santos – Recentemente, entrevistamos aqui uma liderança da região e ele disse que a safra de prefeitos no Entorno é uma das piores da história. Como a sra. vê isso?

Avaliar a gestão das outras pessoas é muito difícil. Eu, como ex-prefeita, digo que foi muito difícil ter passado por lá. Somente nós sabemos onde o cinto aperta. Nós temos uma relação de gestão tripartite. A União fica com 72% de nossa arrecadação. Só desce para Estados e Municípios o que sobra disso, que é 28%. O prefeito tem que fazer as obras estruturantes, como rede de esgoto, asfalto e canal pluvial; tudo com recursos municipal e estadual e não fazemos, temos que fazer com a União. A União, por sua vez, ao invés de priorizar saneamento básico, priorizou Copa do Mundo. Então, ser prefeito hoje é o maior desafio.

Este é um momento muito ruim para todos. Esses dados de baixa popularidade dos prefeitos da região são de pesquisas, e ninguém melhor do que o povo para dizer sobre seu governante porque foi ele que elegeu. Ele tem que avaliar mesmo. Mas temos que lutar verdadeiramente pela divisão justa dos recursos. Gosto de dizer que temos no Brasil o pacto federativo das obrigações.

Mas digo que não há nenhuma outra maior realização para a mulher e o homem públicos do que estar prefeito e prefeita. Um dia eu disse a um ministro que nós prefeitos estamos buscando o imperativo do dinheiro. Porque o pacto federativo das obrigações já era previsto. As obrigações, nós gestores, sabemos quais são. Mas cadê o pacto federativo do recurso? Está preso lá em cima na União. O único ente real são os municípios, por isso, nossos congressistas têm que lutar para de fato existir um pacto federativo que desconcentre da União a maior fatia do bolo. Temos que enfrentar isso na reforma tributária. Quem executa as obras são os municípios. Não vejo isso tomar a pauta. E isso não é só para o Entorno, mas para o Brasil todo.

O fundo da Ride é uma pauta específica que precisa ser colocada pelos parlamentares goianos. Enquanto o Sistema Único de Assistência Social não for obrigatório, como são o SUS e a Educação, não obteremos uma politica pública efetiva. Porque, quando o cinto aperta na prefeitura, o prefeito tem que cumprir obrigatoriamente 25% da Educação e 15% da Saúde. O dinheiro acaba e sabe de onde ele vai tirar? De onde não é obrigatório. Aí vem a assistência social e outros serviços que não são obrigatórios de prestar contas. A maior discussão que vai ser levada para a Conferência Nacional é esta temática. Não adianta falar de sistema tripartite, se não há um percentual fixo para a assistência social. Definir isso é obrigatório; é como eu penso política pública.

Cezar Santos – A sra. foi uma liderança municipal e, agora à frente de uma supersecretaria emerge como liderança estadual. A sra. acredita que pode contribuir mais com um mandato de deputada federal?

Nunca imaginei estar na política. Até os 36 anos, eu nunca havia me filiado. Por uma questão técnica, porque sou professora de carreira, caiu em minhas mãos ser secretária de Educação do meu município, onde implantei um sistema de educação, mesmo sem ser uma pessoa público-partidária. Foi aí que comecei a entender tudo isso, mas eu não planejo o futuro; planejo ações. Eu pertenço a um grupo, do qual tenho muita honra em participar. É um privilégio compor um governo de mais alto nível. E quando eu planejo e dá tudo certo, não é a Lêda, mas o Entorno. Tenho plena convicção disso.

E o governador é o meu grande conselheiro; ele é que me conduz. Quando eu saí das eleições com a não-vitória à reeleição, eu já havia me reapresentado ao Tribunal de Justiça DF. Eu sei que o processo político é um jogo e na cadeira só cabe um. Naquele momento, a cadeira não seria ocupada por mim por quatro anos. Então, me reapresentei logo que passaram as eleições, para não ficar em abandono de cargo. Isso foi em novembro. Tirei minhas férias em janeiro e, no dia 5 daquele mês em 2013, eu estava em Natal quando o governador me ligou. Foi a passagem mais cara que eu já paguei. Larguei a família para trás, porque o chamado do governador é uma ordem; me convidou para almoçar no Palácio. Nesse dia, ele me disse: “Lêda, quero você no meu governo. Vou te dar duas opções e não precisa me dar resposta agora”.

Foi assim que me tornei presidente da AGDR [Agência Goiânia de Desenvolvimento Regional]. Tive que pedir nova licença no Tribunal, para ser cedida ao Estado de Goiás. Foi comigo que o governador transformou a AGDR em braço de execução de obra. A agência era apenas um braço de assessoramento aos prefeitos. Nessa época começamos aquele planejamento regional do Nordeste e Entorno, com várias obras como recapeamento urbano e praças. Aquele parque de Posse foi feito na minha gestão. E como não tenho amarras, não tenho filho para criar, quando o governador fala aqui, é aqui. Tomei posse e amei a AGDR. Foi a primeira vez que compus uma gestão estadual.

No final de 2013, o governador olhou para mim e perguntou o que eu queria. Respondi que queria estar reeleita prefeita, mas perguntei o que ele queria de mim. Afinal, grupo é grupo. Ele respondeu que me queria candidata a deputada estadual. Eu cumpri. Disputei eleição no meio de grandes nomes. Concorri no chapão, com Victor Priori, José Vitti, Valcenôr Braz, Júlio da Retífica, Marlúcio Pereira; com todos. Fui para a campanha crendo na minha capacidade e com a visão que sempre tive de que ninguém na administração pública resolve seus problemas sozinho. Enquanto não nos reunirmos regionalmente em todas as regiões do Estado, não teremos soluções para problemas graves. Não são os pequenos, mas os grandes como a saúde e a educação superior. A segurança pública deve ser regional, assim como o IML.

Eu tive essa visão quando fui prefeita. Por isso muitos prefeitos torcem por mim, onde eu estou. Porque sempre andamos muito juntos e pensando assim. Eu pus na cabeça que iria cumprir meu mandato como deputada. Estava organizada. Em novembro, go­ver­nador nos chama e perguntou se podia contar comigo, se ele precisasse. Eu disse que sim. Entre minha diplomação e a posse, ele tomou posse como governador. Eu soube pelo Facebook dele que eu seria secretária de Estado. Uma pessoa de Valparaíso, de nome Jeferson, me mandou mensagem no WhatsApp me parabenizando por ter sido nomeada.

Eu achei que o governador iria falar comigo antes para que eu pudesse tomar pé da pasta. Não. Pouco depois de publicar a lista no Facebook, recebo uma ligação me informando que eu deveria estar no Oscar Niemeyer às 9 horas para a posse do secretariado. Foi assim. Hoje eu conheço a pasta inteira, mas quando cheguei não.

Eu contei tudo isso para responder o seguinte: o governo entende que o Entorno de Bra­sília é importante em voto e na gestão. A visão do governador sobre aquela região é emblemática.

Euler de França Belém – Tancredo Neves tinha uma frase: “O futuro é construído no presente”. O futuro nunca existiu, nem existirá. A sra. diz que não planeja o futuro, mas os seus adversários planejam e o próprio governador tem uma visão, uma ideia de futuro. Hoje, a sra. é cotada para ser candidata a vice-governadora. Se for chamada para ser vice, a sra. aceitaria?

Tenho uma premissa na vida. Tudo o que bate à minha porta, é para mim. Não conhecia o prefeito de Valparaíso quando me tornei secretária de Educa­ção. Eu não trago a trajetória política como uma obrigação. Eu contribuo para ela, como tenho feito. Os desafios são para mim, quais forem eles. Faço o melhor possível. Para quê? Não sei, mas tenho que construir. Não posso pegar a minha caneta e desconstruir. Ela precisa estar a serviço da construção, seja do cidadão ou do governo do qual faço parte. O que tocar, eu danço.

Eu estou no projeto do governador Marconi, sabendo que José Eliton é nosso candidato e eu faço o que me couber dentro desse projeto, pois creio nele. Então, o governador precisa ter alternativas de região. Uma pergunta que vocês ainda não me fizeram é “se eu vou bater de frente com algum projeto do Célio Silveira”. Jamais. Por quê? Acima de qualquer interesse pessoal meu, está a minha região. Na fila, o Célio está na minha frente e eu não tentarei superá-lo. Eu posso ser mais uma, mas bater de frente não, pois quem perderá com isso será a minha região.

Como uma região com 800 mil eleitores tem apenas um deputado federal que mora na região? A quem interessa o enfraquecimento do Entorno? A mim não pode interessar. Mas interessa a muitos, pois nossa região é uma das mais fortes do Estado; ela define eleições. Já definiu duas vezes. Portanto, eu não posso colocar interesses pessoais ou projetos políticos pessoais acima do grupo e acima da minha região.

Euler de França Belém – Célio Silveira quer que a sra. seja candidata em Valparaíso.

A minha cidade deu 16 mil votos para o Célio; o maior percentual que ele teve foi de Valparaíso. A visão é de que nós podemos perder uma cidade e, assim, farei outra análise: será que eu não terei mais cabedal não sendo prefeita para puxar votos na conjuntura nacional?

Euler de França Belém – Na região toda e não só em Goiás.

Não é uma questão que a minha cidade não mereça. Tenho olhado muito mais para as obras que estão guardadas aqui em um ano. O que eu já consegui em termos administrativos, e não só na minha pasta: uma nova frota de segurança pública para região, mais policiais; a discussão do BRT; a água de Corumbá, questão retomada por Brasília; tenho dado notícia das obras físicas da região. Eu corro atrás. Acredito que estou muito mais útil, até mesmo para minha cidade, pois eu tenho um tratamento republicano com a prefeita e jamais pedimos que parasse uma obra estadual porque estava assentada na cidade.

Ao contrário, abriremos um restaurante-cidadão, três colégios serão inaugurados, assim como o Itego, que é da minha época de prefeita e está sendo concluído. Recentemente, eu fiz uma proposta para o Haroldo Reimer, de R$ 2 milhões, dinheiro de emenda minha como deputada estadual e que vai direto para a UEG construir em Valparaíso. A área eu já havia doado, quando prefeita. Minha visão não é rasa. Eu tenho consciência que sou uma política que presta serviço ao povo, onde quer que eu esteja. Eu não creio em sucesso retalhando as pessoas.

Secretária Lêda Borges ao Jornal Opção: “Estou no projeto do governador Marconi para fazer aquilo que me couber”

Euler de França Belém – Pábio Mossoró também está sendo cotado para ser candidato, mas também existem outros. Como está o quadro?

O PSDB tem Pábio. Eu torço muito para que ele cresça mais ainda nas pesquisas, porque, na verdade, as maiores lideranças ofuscam as demais.

Euler de França Belém – Ele precisa criar outras lideranças?

Sim. Isso é algo que o governador Marconi faz muito bem: ir preparando pessoas. Nós temos que ver que é uma cidade de porte médio, importante para o Estado em termos econômicos e eleitorais. Uma cidade que tem o olhar de Brasília, pois é a primeira cidade na saída sul. Então, tem que preparar outras lideranças, mas que sejam lideranças que queiram o bem do povo, pois ninguém aguenta mais. E eu serei a pessoa que estará lá, orientando a mesma comunidade para isso.

Euler de França Belém – E a sra. acredita na união da base?

Eu creio. Agora, na base, existe um candidato do PR, um dos vereadores, que sente que é o momento dele.

Euler de França Belém – O Marcos Vinicius?

Não, ele é do PSD. Este é o Afrânio [Pimentel]. Ele sente que é o momento dele e as pesquisas vão apontar viabilidade política, o que não passa apenas por intenção de voto, mas também por outros fatores como viabilidade econômica, eleitoral e partidária, de consenso de grupo, capacidade de aglutinar e gerir etc. Isso é muito importante. O PSDB tem um nome, o PR outro e o PSD também. Quando você tira a liderança maior, que está hoje como deputada, é natural que todos achem que estão prontos. E todos podem, mas também pode haver uma composição.

Euler de França Belém – A sra. tem uma visão geral da política da região. A base governista está bem no Entorno?

Acredito que temos bons nomes no Entorno. Temos buscado isso. Em Planaltina, por exemplo, temos um PSDB forte e um PSD também forte. Não digo um nome exatamente, mas os partidos estão bem estruturados.

Euler de França Belém – E em Novo Gama?

Eu não vi pesquisas de Novo Gama, mas acredito que de lá saiam três candidatos. Alan [do Sacolão (PSD)], o presidente da Câmara, pôs seu nome à disposição; Everaldo [Vidal (PP)], que vai para reeleição; e Sônia [Chaves], que tentará voltar ao poder pelo PSDB.

Euler de França Belém – A sra. apoia quem?

Eu ficarei neutra. Eu preciso me concentrar em Valparaíso, como deputada inclusive. Mas, como falei, se o governador determinar estou aqui para ajudá-lo, pois quem não pode ser exposto é ele.

Euler de França Belém – E em Luziânia? Como está a situação?

São dois da base. Creio que o governador, como disse, fará gestão e o José Eliton a parte política. Então, o PSDB tem o Marcelo [Melo], mas o PSD tem a reeleição do Cristóvão Tormin. Dois da base. Por isso, eu acho que estamos bem. Quando você olha a base, vê que tem três em Novo Gama, que tem base em Águas Lindas, em Planaltina e em Luziânia. Quais as únicas que não são base? Valparaíso, Formosa e em Cidade Ocidental, que tem Paulo Rogério que não é base.

Então, existe uma complicação partidária, mas quando se amplia para base são duas cidades apenas. Até em Cristalina, os bons pré-candidatos, são da base. Depois que a eleição passa, o quadro é outro. Você começa uma nova etapa de acomodação, aproximação e preparo do pleito estadual de 2018. Valparaíso foi “água e óleo”, PT e PSDB, assim como Formosa e Catalão. São os três municípios emblemáticos.

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