Criatividade, para o bem ou para o mal

BLOG DO SOMBRA / POR HELIO DOYLE - 03/10/2016 - 08:37:41
 

Seja para fazer uma administração eficiente (o que tem sido raro), seja para roubar o dinheiro dos municípios (o que tem sido frequente), é preciso ter coragem para se candidatar a prefeito das cidades goianas que integram a área metropolitana de Brasília.

Hoje está muito mais difícil fazer uma gestão com resultados positivos, assim como está mais complicado desviar dinheiro dos cofres públicos e extorquir fornecedores. Não apenas nas cidades vizinhas ao Distrito Federal, em todo o país. Mas estar próximo a Brasília dá mais visibilidade à má gestão e à corrupção. 

As mazelas nos municípios vizinhos ganham maior destaque, exigindo muito empenho dos prefeitos para superá-las, sem dinheiro e com a economia em baixa. E os órgãos de controle e a imprensa estão mais perto para fiscalizar.

Criatividade, para o bem ou para o mal

As prefeituras são vítimas da crise financeira e econômica pela qual passa o país e não têm recursos para arcar com suas obrigações básicas. Os municípios que circundam Brasília enfrentam enormes problemas e sentem os reflexos da má situação financeira do Distrito Federal e da economia local e regional. Não será fácil administrá-los.

Como hoje a população está mais atenta às falcatruas e os órgãos de controle estão mais atuantes, os que quiserem manter a tradição de roubalheira que caracterizou algumas das gestões passadas no chamado Entorno vão ter de ser, nesse quesito, muito competentes.

Região metropolitana sem apoio

Não há solução miraculosa ou definitiva para os problemas nos municípios na área de Brasília, mas a criação da região metropolitana reunindo a capital e 12 cidades vizinhas poderia melhorar a situação. No mínimo, para que haja um planejamento regional integrado, que considere os 4,1 milhões de habitantes da área e não só os três milhões do DF.

A região metropolitana possibilitaria a coordenação das medidas necessárias para buscar o desenvolvimento econômico e a redução da dependência em relação a Brasília. Mas nem o governador de Brasília, Rodrigo Rollemberg, nem o de Goiás, Marconi Perillo, parecem empenhados nisso.

Se não há integração, o caos é inevitável

A existência de grande população em torno das capitais não é peculiaridade de Brasília, obviamente. Em todo o mundo, muitos moradores de cidades vizinhas trabalham nas capitais e há grande procura pelos serviços públicos nela prestados, que tendem a ser melhores.

Washington, DC, tem cerca de 680 mil habitantes, que chegam a 6 milhões com os que vivem à sua volta em dois estados vizinhos. A Cidade do México tem quase nove milhões de moradores e são 21 milhões na região metropolitana. Na cidade de Buenos Aires moram três milhões de pessoas, chegando a 14 milhões com os que vivem na província de Buenos Aires.

Sem planejamento integrado e ações articuladas, especialmente nas áreas de desenvolvimento econômico, ordenamento urbano, saneamento, segurança, transporte, saúde e educação, o caos é inevitável. Como a situação aqui demonstra muito bem.

Mudar o tamanho do DF vai resolver?

Alguns acham que uma solução para a integração da área metropolitana de Brasília seria a expansão do território do Distrito Federal, que tem 5.802 quilômetros quadrados. Há quem fale em retomar o quadrilátero definido pelas missões Cruls: 14.440 quilômetros quadrados.

Há também quem pregue a redução do DF, que se limitaria ao Plano Piloto e bairros mais próximos, como os Lagos Sul e Norte, o Guará e o Núcleo Bandeirante. As áreas das demais regiões administrativas voltariam para Goiás ou, com os municípios vizinhos, formariam um novo estado.

As propostas existem, mas a discussão não prosperou.

Redução com objetivo político

Na verdade, a ideia de reduzir a área do Distrito Federal ao centro de Brasília – no máximo ao território rodeado pela DF-001 – tem como objetivos dispor de mais recursos para preservar o Plano Piloto de Lucio Costa e dar nova organização política à cidade, livrando-a da Câmara Legislativa e, para alguns, da eleição de governador.

Os defensores dessa tese alegam que o Distrito Federal é grande demais. E lembram que ao propor área tão extensa, os criadores da nova capital pensavam em um cinturão verde capaz de garantir o abastecimento da cidade, o que hoje não é mais possível devido às ocupações urbanas legais e ilegais.

O DF brasileiro é mesmo o maior. Washington tem 177 quilômetros quadrados. A Cidade do México tem 1.485 quilômetros quadrados e Buenos Aires tem 203,3.

Solução tem de ser encontrada

Devolver as terras a Goiás não irá necessariamente melhorar a situação das regiões administrativas do DF e da área metropolitana. A criação de um novo estado significará grande aumento de gastos e também não levará automaticamente a uma melhor qualidade de vida nas cidades do DF e de Goiás.

Mas, diante de um quadro tão ruim como o atual, não custa nada debater melhor as alternativas para integrar o espaço urbano de Brasília e das cidades vizinhas.