Artigo: ‘A nova cara da democracia’

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Fala-se muito que é preciso renovar a política. A renovação sempre existiu. De políticos. De nomes. Não de ideias, de práticas. Na Câmara Legislativa, por exemplo, a média histórica é de 50%. Calcula-se que em 2014 a renovação chegue a 75%. Melhorou alguma coisa? Não. Em algumas legislaturas piorou.

O que se percebe é que os novos são parentes ou apadrinhados dos que estão ai no poder. Ou seja, as mesmas caras, os mesmos nomes, os mesmos problemas. Gente nova não quer dizer renovação na política. A falta de renovação de ideias é um dos pontos críticos da vida pública.

A mudança de partido no poder não significa, necessariamente, um novo modelo de governar. Se você analisar o primeiro escalão do governo Agnelo vai perceber que tem secretários, secretários-adjuntos, subsecretários e diretores de empresas e autarquias que estiveram nos governos José Roberto Arruda, Joaquim Roriz e Cristovam Buarque.

Se analisar mais a fundo, a política de Brasília tem duas ramificações. A primeira do grupo de Roriz. A outra do PT. Todos os personagens de hoje vieram de um lado ou do outro. Alguns conseguiram se metabolizar e atender a dois senhores. O problema é que os políticos perderam o medo do eleitor. E a vergonha na cara. Mudam de A para B sem nenhum constrangimento.

É preciso parar de confundir renovação com troca de nome. Se você troca de nome e as práticas continuam as mesmas, você não tem renovação. Por mais que entre outro, mas que continue fazendo a mesma coisa, você praticamente não mudou.

Em sua coluna mensal distribuída pelo serviço de notícias do jornal New York Times, dos Estados Unidos, o ex-presidente Lula mandou uma mensagem aos jovens brasileiros: “Mesmo quando você está desanimado com tudo e com todos, não desista da política. Participe! Se você não encontrar em outros o político que você procura, você pode achá-lo em si mesmo”.

O que Lula não entendeu é que os jovens, assim como o restante dos brasileiros, não desistiram da política. Estão desistindo dos políticos que estão ai. A impunidade é tão grande que vivemos a era da mediocridade. Acham que pode se cometer qualquer irregularidade e basta dar uma bolsa-qualquer que a eleição está garantida. E a perpetuação no poder.

As manifestação de junho mostraram que a maré está virando. A falta de respeito fez o povo acordar. E os políticos, esses continuando remando contra. Uma nau a deriva. Não existe uma arca da salvação. O que há é uma nau dos insensatos.

Agnelo terá o desafio de buscar ideias que estejam ao encontro do povo. Saber o que a sociedade almeja é o primeiro passo para compor uma mensagem. Velhas práticas serão rejeitadas pelo eleitor em 2014. Pode apostar. Quem teimar, vai se dar mal.

O Distrito Federal terá poucos novos nomes nas eleições do próximo ano. Será uma eleição do mais do mesmo. O eleitor vai ter que escolher com o que está ai.

Os jovens estão nas ruas, mas precisam estar na política também. Aquele jovem que vê a política como utopia, como algo que de certa forma vai possibilitar que ele transforme ou melhore a atividade social.

Nunca se falou tanto em política em nosso país. Quem acha que brasileiro não se interessa pelo tema, engana-se. As vezes tem opiniões desfocadas por falta de informação. Mas isso acontece em todos os assuntos, de religião ao futebol.

A política está nas praças, bares, ruas, esquinas e conversas em todos os cantos e recantos. É um movimento emergente e hegemônico.

Na abertura da Copa das Confederações eu vi muita gente assalariada, classe média baixa, que comprou ingresso caro para levar o filho pela primeira vez num estádio de futebol. Ou para assistir um jogo da Seleção. Pagou em três, quatro, cinco vezes no cartão. Conheço muita gente que fez isso.

E estão entre as pessoas que entoaram as três vaias para a presidente Dilma. Que manifestaram sua insatisfação com a classe política e com o governo. Com a afronta dos gastos da Copa do Mundo. Um tapa na cara dos brasileiros.

Após a vaia, dois simpatizantes protestaram contra as vaias. Um deles disse: “Vaiar a Dilma é a cara da burguesia”. Eu respondo: “Não companheiro, vaiar é a cara da democracia”. 

Fonte: Blog do Ricardo Callado

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