Brasília: apologia e crítica

Já se tornou lugar comum alardear o vanguardismo arquitetônico e urbanístico de Brasília. Enaltecer o caráter revolucionário desse feito humano continua sendo louvável – e necessário para a formação cultural dos brasilienses do futuro. Mas a apologia deve vir acompanhada de sua crítica.
 
Única cidade moderna tombada pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade, Brasília vem sendo assolada nas últimas décadas pela especulação imobiliária, grilagem de terras e ocupação desordenada.
 
Após 55 anos da concepção do projeto original, Brasília, e particularmente o Plano Piloto de Lucio Costa, convive com problemas típicos de grandes cidades, como trânsito intenso, criminalidade crescente e favelização. Depois de anos de governos despreocupados com o planejamento da cidade, agora observamos claramente as conseqüências dessa inação: o Plano Piloto não consegue comportar os mais de 2,3 milhões de habitantes que vivem no Distrito MFederal e 1,3 milhão de residentes em municípios limítrofes goianos e mineiros que se deslocam diariamente para o centro da capital. …
 
O Plano Piloto concentra cerca de 70% dos empregos. É onde estão as principais opções culturais, esportivas, de lazer, educacionais, médicas. É o destino final de centenas de milhares de veículos e pessoas todos os dias, com seus efeitos diretos sobre o meio ambiente e a mobilidade.
 
Na minha avaliação, é necessário ampliar oportunidades e criar empregos nas regiões administrativas, reduzindo assim a forte dependência e a enorme pressão sofrida pelo Plano Piloto, que já se mostra fragilizado, sufocado, desgastado. Além disso, é preciso recuperar o sistema de transporte urbano, que se encontra em frangalhos, e investir em alternativas limpas e baratas, como o transporte por ciclovias, que devem vir acompanhadas de campanhas educativas, melhorias na sinalização e bicicletários.
 
O enorme desafio de construir a capital federal onde não havia nada foi recompensado pela magnífica obra arquitetônica e urbanística, desenhada nas pranchetas de dois ilustres brasileiros e erguida sobre a poeira por milhares de anônimos de todos os cantos do país. É o conjunto dessa história que se fez merecedor do título da Unesco.
 
Não nos esqueçamos de que, originalmente, o Plano Piloto foi pensado para abrigar harmoniosamente motoristas e diplomatas, jardineiros e ministros. Hoje isso soa como utopia numa cidade que ostenta um dos custos de moradia mais altos do Brasil. Mas não se trata aqui, claro, da defesa de um retorno impossível ao passado e muito menos do engessamento ingênuo da cidade. O que precisamos é de planejamento responsável e competente, que leve desenvolvimento social e econômico para todas as regiões administrativas do Distrito Federal – todas tão brasilienses quanto o Plano Piloto.

Por Chico Leite  – Procurador de Justiça (licenciado), Professor de Direito Penal e Deputado Distrital pelo Partido dos Trabalhadores.

Fonte: Chico Leite – 08/02/2013