Corrida pelo voto dos evangélicos

Pré-candidatos ao Planalto buscam alianças e tentam cativar os 20 milhões de fiéis aptos a ir às urnas em outubro

NAIRA TRINDADE

Publicação: 22/04/2014 04:00

Pastor Marco Feliciano, durante evento com lideranças evangélicas na Esplanada: eleitorado expressivo (Monique Renne/CB/D.A Press - 5/6/13)  
Pastor Marco Feliciano, durante evento com lideranças evangélicas na Esplanada: eleitorado expressivo

As campanhas estão a dois meses e meio do início oficial, mas, nos bastidores da política, uma verdadeira peregrinação está em marcha para cativar os votos de um atraente eleitorado: os evangélicos. Fiéis aos ensinamentos religiosos pregados nas diferentes igrejas e assembleias espalhadas pelo Brasil, eles se transformaram em eleitores expressivos, capazes de empurrar a disputa eleitoral à Presidência da República, em 5 de outubro, para um segundo turno.

Na corrida às urnas, os principais pré-candidatos ao Palácio do Planalto se mobilizam para demarcar território. Eduardo Campos (PSB) — que tem como vice a evangélica Marina Silva (PSB/Rede) —, por exemplo, anunciou ser contrário ao aborto, postura condizente com posicionamento cristão.

Nas eleições de 2010, o tema ganhou proporções. Precisou ser desmentido que a presidente Dilma Rousseff (PT), atual pré-candidata à reeleição, era favorável ao aborto para evitar rejeição nas urnas. À época, Dilma contava com o apoio do pastor Everaldo Pereira (PSC), que este ano decidiu sair em candidatura própria ao Planalto. Ela busca agora arranjar um novo nome para “puxar votos”.

As movimentações políticas miram a representativa fatia de cerca de 20 milhões de fiéis. São eleitores expressivos, que podem pulverizar os votos em outubro. Grande parte deles apoiou a evangélica Marina Silva nas eleições de 2010, quando, pelo Partido Verde, ela conquistou a terceira colocação no primeiro turno, com 19 milhões dos votos válidos (19,33% da porcentagem total). A representatividade de Marina ajudou a levar as eleições para o segundo turno.

Pesquisas
A ex-ministra do Meio Ambiente volta agora como vice de Eduardo Campos, mas terá de enfrentar um quarto candidato forte no meio evangélico. Pesquisa divulgada recentemente pelo Ibope revela o crescimento do pastor Everaldo Pereira, que obteve entre 2% e 3% das intenções de voto, emplacando o quarto lugar no ranking de pré-candidatos. Everaldo é da Assembleia de Deus Ministério de Madureira e ocupa atualmente a vice-presidência do PSC. Formado em ciências atuariais, disputa pela primeira vez uma eleição, porém desbancou sete nanicos, a maioria deles conhecida pelo eleitorado devido às repetidas tentativas de presidir o Brasil. A saída do pastor da base governista, segundo interlocutores, enfureceu a presidente Dilma Rousseff.

Na visão do professor de ciências políticas da Universidade de Brasília Lucio Remuzat Rennó Junior, a presidente Dilma Rousseff será a pré-candidata menos afetada com a pulverização dos votos evangélicos. “A candidatura de Everaldo não é uma ameaça para Dilma, que tem votos em outras áreas. Ele vai disputar votos é com Marina, que depende desses eleitores”, analisa o cientista político. Para Rennó, a maior participação de candidatos pulveriza votos. Até o momento, há pelo menos 11 pré-candidatos na disputa ao palácio. Eles têm até 5 de julho para registrarem oficialmente a candidatura.

“Não existe um voto evangélico, são vários votos evangélicos, pois eles são muito fragmentados”, avalia o cientista político Ricardo Caldas, professor da Universidade de Brasília. “A (igreja) Universal apoia a Dilma pelo PRB, a Assembleia de Deus apoia a Marina, mas não na sua totalidade (o pastor Everaldo Pereira também tem apoio da Assembleia), já Aécio busca ajuda nas igrejas independentes”, analisa.

Na opinião de Caldas, Everaldo conta com o evangélico independente, aquele que está fora das grandes instituições. “Ele tem potencial de crescimento. Já o Aécio Neves precisa buscar apoio numa igreja, fazer algum acordo para atingir esse público, porque ele não mostrou que tem votos nessa área. A área evangélica mostrou-se fundamental para a candidatura se transformar em competitiva”, diz o cientista político.

Na mira dos candidatos, está a Assembleia de Deus, que é dividida em duas partes — a Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil (Ministério de Madureira) e a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Juntas, elas contam com 16 milhões de seguidores, sendo que a corrente majoritária, a CGABD tem cerca de 10 milhões. Em 2010, apoiou o PSDB. Já a ala da Assembleia de Deus conhecida como Ministério Madureira, com 6 milhões de seguidores, ajudou a presidente Dilma Rousseff nas últimas eleições. Porém, parlamentares ligados aos dois campos dizem que ainda é cedo para anunciar apoio.

A bancada no Congresso
Confira alguns parlamentares evangélicos em atuação no parlamento

Senado

Marcelo Crivella ( PL-RJ)
Pretende concorrer ao governo do Rio. Está no segundo mandato, eleito com 3,3 milhões de votos

 (Waldemir Barreto/Agência Senado - 24/3/10)  

Magno Malta (PR-ES)
Eleito com 1,28 milhão de votos em 2010, colocou-se à disposição do partido para concorrer à Presidência

Câmara

Anthony Garotinho (PR-RJ)
Ex-governador do Rio, foi eleito deputado com 694,8 mil votos. Pode tentar o governo do Rio de novo

Marco Feliciano (PSC-SP)
Elegeu-se deputado federal em 2010 com expressivos 211 mil votos no primeiro mandato

Pastor Francisco Eurico (PSB-PE)
Formado em teologia, conquistou o primeiro mandato de deputado federal em 2010 com 185 mil votos

Pastor Paulo Freire (PR-SP)
Está no segundo mandato. Foi eleito deputado federal em 2010 com 161 mil votos

Missionário José Olimpo (PP-SP)
Conquistou seu primeiro mandato na Câmara após obter 160 mil votos, em 2010

 (Valério Ayres/CB/D.A Press - 13/3/14)  

Eduardo Cunha (PMDB-RJ)
Está no quarto mandato de deputado federal. Conseguiu 150,6 mil votos nas últimas eleições

Zequinha Marinho (PSC-PA)
Com 147 mil votos, tornou-se deputado federal pela terceira vez em 2010

Washington Reis (PMDB-RJ)
Eleito com 138 mil votos, disputou a prefeitura de Duque de Caxias (RJ) em 2012, mas não
se elegeu

 (Carlos Moura/CB/D.A Press - 2/7/13)  

João Campos (PSDB-GO)
Está no terceiro mandato. Conquistou a confiança de 135 mil pessoas nas eleições de 2010

Silas Câmara (PSD-AM)
Vai concorrer ao quarto mandato nas eleições de outubro. Em 2010, obteve 126 mil votos

Newton Lima (PT-SP)
Elegeu-se deputado com 110 mil votos. Em 98, tentou o governo de São Paulo, mas perdeu

Pastor Takayama (PSC-PR)
Está no terceiro mandato de deputado federal, eleito com 109 mil votos

André Zacharow (PMDB-PR)
Com 101 mil votos, elegeu-se ao terceiro mandato de deputado federal consecutivo

Arolde de Oliveira (PSD-RJ)
Está no sétimo mandato na Câmara. Contou com 99 mil votos em 2010 para garantir-se deputado de novo

Marcelo Aguiar (DEM-SP)
Músico e evangélico, elegeu-se ao primeiro mandato de deputado federal com 98,8 mil votos

Filipe Pereira (PSC-RJ)
Elegeu-se deputado federal pela segunda vez em 2010, com 98 mil votos

Andre Moura (PSC-SE)
Ex-prefeito de Pirambu (SE) está no segundo mandato de deputado federal, com 83 mil votos

 (Edílson Rodrigues/CB/D.A Press - 31/1/11)  

Benedita da Silva (PT-RJ)
Disputou o governo do Rio, sem sucesso, em 2002. Já foi deputada, senadora e vereadora. Está no terceiro mandato
na Câmara. Conquistou 71 mil votos em 2010

Lauriete (PSC-ES)
Cantora gospel, está no primeiro mandato de deputada. Obteve 69,9 mil votos em 2010

Ronaldo Fonseca (PR-DF)
Com 67,9 mil votos, conquistou o primeiro mandato na Câmara em 2010. Vai tentar a reeleição

Nilton Capixaba (PTB-RO)
Está no terceiro mandato de deputado federal. Obteve 32 mil votos nas últimas eleições

Liliam Sá (PR-RJ)
Exerce seu segundo mandato de deputada conquistado em 2010 com 29 mil votos

Fonte: Correio Braziliense22/04/2014

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