Depoimento reforça dinheiro de partidos

Acusado de lançar o rojão que matou cinegrafista afirma que o PSol e o PSTU estariam entre os financiadores das manifestações

JULIA CHAIB

Caio, dentro do camburão da Polícia Civil do Rio: rapaz disse aos investigadores que é preciso  
Caio, dentro do camburão da Polícia Civil do Rio: rapaz disse aos investigadores que é preciso “investigar por dentro” o financiamento dos protestos

Em depoimento prestado ontem à Polícia Civil do Rio de Janeiro, Caio Silva de Souza, 22 anos, reiterou as acusações de que partidos e organizações políticas estariam ligadas ao pagamento de pessoas para participarem de manifestações violentas. Citou nominalmente o PSol e o PSTU como financiadores da prática e disse que é preciso “investigar por dentro”. O jovem é um dos dois suspeitos de lançar o rojão que atingiu e matou o cinegrafista Santiago Andrade, durante um protesto no último dia 6. Depois de ter sido preso em Feira de Santana (BA), na madrugada de quarta-feira, Caio está preso temporariamente no Complexo Penitenciário de Bangu, na Zona Oeste do Rio, onde falou à polícia.

Em outro trecho do relato, o auxiliar de serviços gerais mudou a versão que havia dado à imprensa e afirmou não ter acendido o artefato. Quem o teria feito, segundo ele, foi Fábio Raposo, que está preso desde o último domingo por participação no mesmo crime. Caio confessou ter segurado o rojão e o posicionado no chão em direção ao efetivo policial que acompanhava a manifestação, pois era de lá que “vinha a fumaça”.

Pelo que contou ao delegado Maurício Luciano de Almeida, que investiga a morte de Santiago, Caio disse acreditar que “os partidos que levam bandeiras é que são os mesmos que pagam os manifestantes”. O jovem apontou o PSol, o PSTU e ainda o grupo político Frente Independente Popular (FIP) como os financiadores do quebra-quebra em manifestações. Disse ainda ter recebido convites para participar de tumultos durante protestos, que incluiriam verbas para a passagem de ônibus e alimentação.

Caio negou conhecer o deputado estadual Marcelo Freixo (PSol-RJ). O parlamentar acabou envolvido no caso após a suposta declaração de uma militante — Elisa Quadros, conhecida como Sininho — ao estagiário do advogado que defende Caio e Fábio, de que os jovens seriam próximos ao deputado. A ativista negou a declaração, que teria sido feita por telefone, e Freixo garantiu não conhecer nenhum dos dois jovens.

Após o depoimento, o PSTU divulgou nota na qual se diz indignado com a acusação. “Todos que conhecem nossa prática sabem que isso não corresponde à realidade. É necessário investigar com clareza o suposto aliciamento nas manifestações. Pode ser que haja setores da direita fazendo isso.” O texto diz ainda que o partido assumiu “publicamente, desde o ano passado, a crítica aos black blocs” pelas ações “inconsequentes e equivocadas”. “Seguiremos sendo parte das mobilizações contra os governos e por direitos e exigimos que se apure a verdade e puna os responsáveis.”

Na mesma linha, o presidente do PSol do Rio de Janeiro, Rogério Alimandro, nega a prática de financiamento do vandalismo. “Não pagamos militantes. Existem motivos suficientes na realidade para as pessoas se manifestarem. Ninguém precisa pagar. É possível que haja infiltração? Cabe às autoridades averiguarem.” Sobre uma lista que circula nas redes sociais com supostos pagamentos de políticos e autoridades para black blocs, Alimandro defende Renato Cinco e Jefferson Moura, vereadores da legenda. “Conversei com o Renato Cinco e, sim, houve contribuição por parte dele. Mas ele fez doação pessoal para uma ceia de moradores de rua da Cinelândia, em 23 de dezembro, a ‘Ceia da Miséria’. Tanto que a lista de compras é pão, água, macarrão… Não é uma doação para black blocs.”

O presidente do Psol-RJ criticou ainda Caio e o advogado Jonas Tadeu Nunes. “É uma irresponsabilidade das grandes dizer que ‘ouvi dizer que partidos que levam bandeiras remuneram black blocs’. Nós defendemos o direito de que qualquer agremiação política, social, seja sindicato ou associação de moradores, vá para manifestações com suas bandeiras, seus símbolos.”

Racha na legenda
Militantes do próprio PSol, no entanto, acusam a direção do partido no Rio de Janeiro de radicalizar as ações e posições ideológicas da legenda para cooptar a juventude que está nas ruas desde junho. Criticam o diretório estadual por fechar a porta para parlamentares da legenda, como o deputado federal Ivan Valente (SP) e o pré-candidato do partido à Presidência da República, senador Randolfe Rodrigues (AP).

Alimandro diz que, uma vez nas ruas, a juventude se aproximou naturalmente da legenda. “As manifestações que se massificaram em junho, sem dúvida, levaram para o debate político milhares de jovens. O PSol, como partido que participou do processo, teve quadros aumentados com a participação de jovens, muitos entraram no partido neste período”.

Nota publicada no site da Insurgência, corrente de Alimandro, no entanto, critica o Congresso do PSol, realizado em novembro, em Luziânia (GO), e que alçou Randolfe ao posto de pré-candidato. “O PSol está cindido entre dois projetos inconciliáveis”, diz o texto, que chama o grupo de Rodrigues de “uma repetição caricata do que terminou sendo a trajetória do PT e uma negação do projeto original psolista.”

Principais pontos
Confira o que Caio Silva de Souza disse à Polícia Civil do Rio de Janeiro, em depoimento, ontem. Além de mudar a versão  sobre o rojão que matou o cinegrafista Santiago Andrade, ele apontou quem aliciaria jovens para participarem de protestos

Partidos

O rapaz afirmou acreditar que entidades e “os partidos que levam bandeiras” às manifestações são os mesmos que pagam a manifestantes. Listou PSol, PSTU e a Frente Independente Popular (FIP)

Aliciamento
No depoimento, contou que jovens seriam pagos para participarem de passeatas. Disse ter recebido um convite, com direito a dinheiro da passagem, lanche e quentinha, mas não sabe quem são os aliciadores. Afirmou ainda ter visto a chegada de 50 refeições para os ativistas do Ocupa Câmara (Municipal do Rio de Janeiro)

Rojão
Garantiu que segurou o rojão, após o tatuador Fábio Raposo ter acendido o artefato. Disse que o colocou no chão, direcionado para policiais, mas pensou se tratar de um sinalizador

Black Blocs
De forma vaga, afirmou que nem sempre participou do movimento

Sininho

Conhece a ativista, mas ela nunca o teria chamado para manifestações. Não a considera uma líder, mas uma “manipuladora” dos protestos

Contabilidade
Discordâncias entre ativistas teria levado à publicação, nas redes sociais, de uma “contabilidade do dinheiro distribuído”

Apoio a Freixo
A acusação de Caio de Souza Silva de que partidos políticos têm ligação com grupos que praticam atos de violência em protestos envolveu em um primeiro momento o deputado estadual do Rio de Janeiro Marcelo Freixo (PSol). A página no Facebook “Eu tenho ligação com o Marcelo Freixo”, criada em apoio ao parlamentar, atingiu 46 mil curtidas em menos de cinco dias. O perfil tem recados de anônimos e famosos, como a atriz Leandra Leal, que postou no Instagram uma foto com o deputado, em um gesto de solidariedade. Freixo usou a página para agradecê-la.

Fonte: Correio Braziliense

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Israel Carvalho

Diretor-Presidente do portal Gama Cidadão, Jornalista nº. DRT 10370/DF, Multimídia e Internet Marketing.

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