Distrital Juarezão quer oficializar o torneio da morte

Vicente Vecci  

A Câmara Legislativa do Distrito Federal quer tornar a vaquejada uma modalidade esportiva oficial de Brasília e projeto nesse sentido foi apresentado  pelo deputado Distrital Juarezão (PRTB) e tem o aval do líder do PT  nessa Casa, deputado Chico Vigilante. Trata-se de um retrocesso que fere a lei Federal 9.605/98 que trata da proteção ambiental, aonde reza que maus tratos de animais domesticados constituem crimes. O juiz da 3ª Vara da Fazenda Pública do TJDF, suspendeu em fevereiro desse ano uma disputa de vaquejada  em Planaltina – DF, originando jurisprudência em defesa  e proteção dos  animais.

Originária do sertão nordestino no século XIX, a vaquejada veio se tornar uma disputa violenta bastante utilizada nos dias atuais com requintes de crueldade, maus tratos e até a morte de animais. Tem suas raízes no coronelismo aonde vaqueiros campeavam nas caatingas o gado bravio. Alguns se destacavam pela habilidade em desviar da vegetação espinhosa e acidentada para capturá-los, principalmente os bezerros nascidos e criados no mato.

O que era uma lida no meio rural praticamente sem acidentes e mortes aos poucos foi se transformando em competição, nascendo a idéia da vaquejada na região no Seridó no município de Currais Novos no Rio Grande do Norte. Sem registros precisos de datas, sabe-se apenas que foi nos meados de 1940 que os vaqueiros nordestinos trouxeram a público a vaquejada numa disputa conhecida como Corrida do Mourão, iniciando essa prática popular na região nordeste espalhando até os dias atuais pelo país em eventos das exposições agropecuárias e outros isolados em pistas montadas especificamente para esse tipo de torneio. Os vaqueiros competidores pagam taxas para se inscreverem de olho na premiação que, dependendo do torneio compreende carros, motos e até dinheiro, muitas vezes ofertadas por patrocinadores. Nos dias do calendário dos eventos, são apresentados shows, forrós, e consumidas bebidas alcoólicas.

Na apresentação da disputa na pista, os vaqueiros em dupla, montados em eqüinos treinados saem na perseguição a galope de um touro solto. E nessa corrida, um dos vaqueiros pega e segura o rabo do bovino e em seguida entrega-o para seu colega, denominado “puxador” que tem que derrubá-lo entre duas faixas feitas no final da pista. Daí o perigo de acidentes com mortes ou fraturas nos animais e até nos vaqueiros. Alguns afoitos para a platéia, querendo se exibirem, fazem essas manobras com violência contra o touro, podendo provocar quebras na coluna vertebral e das patas. Quando esse ocorre, o animal tem que ser sacrificado momentos depois. Mas muitas vezes, esse procedimento não acontece e a vítima permanece em agonia no corredor lateral do círculo da pista. O que não deixa de ser um crime contido na Lei 9605/98 no seu artigo 32, que penaliza maus tratos de animais domésticos. Mas infelizmente esse crime fica impune, devido ausência de agentes ambientais nessas arenas.

Há pouco tempo, atendemos uma denúncia de uma ocorrência de que havia um touro agonizando no chão de um corredor duma pista de uma vaquejada realizada na área rural do Gama-DF, 2 dias após o encerramento do evento. Fomos até o local nas margens da estrada DF-290 que liga as Brs 060 e 040 , acompanhado por um colega da Patrulha Ambiental de Inteligência  e lá chegando comprovamos o fato. Imediatamente acionamos o comando do 9º BPM baseado nessa satélite do DF e comunicamos o crime solicitando apoio. Vieram duas viaturas e iniciamos a apuração, onde soubemos que o evento foi realizado num final de semana e o touro fora ferido na competição na tarde de um domingo, quebrando as patas dianteiras e a coluna vertebral, e estava nesse local até esse dia, numa terça-feira, agonizando..

O torneio foi ilegal e os responsáveis não tinham alvará para a festa e nem a estrutura necessária como ambulância, veterinário, etc. Restou-nos então a orientar os policiais para abertura de inquérito e punição dos culpados conforme manda a lei. Foram conduzidos à delegacia da jurisdição e estão respondendo processo judicial.

Vicente Vecci edita em Brasília há 31 anos o Jornal do Síndico e é Delegado Regional da Patrulha Ambiental de Inteligência – 04/07/2015