Eleições: Vale-tudo institucionalizado

Após a derrota nas urnas na disputa pelo Senado, a ex-corregedora do CNJ conta o que aprendeu nos bastidores da política. Apesar do diagnóstico desolador, ela diz que é possível implementar mudanças

imgDepois de chamar a atenção do país para o submundo do Judiciário, com a célebre expressão “bandidos de toga”, a ministra aposentada do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Eliana Calmon experimentou, pela primeira vez, os prazeres e os dissabores da política. Conduzida ao PSB pelas mãos de Marina Silva e Eduardo Campos, a ex-corregedora do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) saiu da estreia nas urnas em terceiro lugar, com 8,4% dos votos para o Senado pela Bahia, na disputa vencida por Otto Alencar (PSD)…

Entre as muitas conclusões que tira do processo eleitoral, estão a existência do voto de cabresto em pleno século 21, a desigualdade entre os candidatos ferindo a democracia do pleito, a atuação imoral dos cabos eleitorais e um comportamento dos políticos que resulta na “institucionalização do cinismo”. Apesar do cenário sombrio traçado, Eliana não descarta continuar na política. Ela diz que tem recebido muitas cobranças e apoios para se manter engajada até as próximas eleições. 

Embora tenha ganhando apenas de candidatos nanicos, que obtiveram menos de 1% da preferência do eleitorado, Eliana faz o balanço pelos números absolutos. “Tive mais de meio milhão de votos, não é coisa pouca”, diz. A ministra aposentada se orgulha dos 20% de votos obtidos em Salvador, onde a atuação dela no Judiciário é mais conhecida. Confira os principais trechos de entrevista que ela concedeu ao Correio.

Que balanço a senhora faz da estreia na política nesta primeira eleição?

Foi uma experiência muito boa, eu tirei muitas conclusões. Sabia das dificuldades que encontraria. Mas posso dizer o seguinte: como cidadã brasileira, minha experiência foi muito bem-sucedida porque eu fui bem votada, tive mais de meio milhão de votos, não é coisa pouca. Tive 20% dos votos da cidade de Salvador, sem ser uma candidata com estrutura de grandes partidos. Então, dadas as dificuldades, eu me considero uma vencedora e tenho algumas conclusões. A primeira conclusão é a falência total do sistema eleitoral como um sistema democrático. Há uma grande desigualdade entre os candidatos. Alguém com um minuto de tevê e os seus adversários com cinco, sete minutos, isso não pode estar certo. Depois é a situação da própria Justiça Eleitoral, que não tem estrutura adequada para fazer uma fiscalização melhor no que se passa no interior do estado, nas cidades menores. 

E o que a senhora viu por lá?

Tem muito derrame de dinheiro, muita compra de votos, eleitores intimados com a ameaça de perda de cargos, os chamados terceirizados aterrorizados com a ameaça de uma revisão dos contratos. Isso me deixou muito triste, porque, realmente, se eu não tivesse vivido isso, poderia achar que era conversa. Mas, infelizmente, isso ainda existe nos grotões, nas cidades do interior, entre as pessoas mais simples, as pessoas mais humildes, que temem o braço do Estado e terminam votando coercitivamente. Foi uma coisa que me deixou muito preocupada porque nós estamos igual a 200 anos atrás, na mesma situação, com as mesmas práticas. Isso foi verificado em cidades do semiárido baiano, que é a área atingida pela seca, na região da Chapada, onde estão os bolsões de pobreza da Bahia, que é um estado muito grande e diversificado. Lá, temos o grande celeiro do voto de cabresto. Eu vivi isso tudo. Visitei cidades simples, de barqueiros e alguns pequenos comerciantes. Pessoas que vivem única e exclusivamente das benesses governamentais e onde o governo sempre ganha. Vi distribuição de cestas básicas em véspera de eleição, de motos, de carros de cachorro-quente. 

O voto de cabresto não é coisa do passado?

Não, é uma coisa muito viva, muito presente. É interessante que nem as estatísticas nem as previsões eleitorais alcançam isso, porque é algo que ocorre nos rincões. Aqui também as pesquisas eleitorais se mostraram equivocadas em razão da falta de penetração nesses locais.

Quando a senhora fala em desigualdade entre os candidatos, está falando de financiamento desigual também?

A questão do financiamento de campanha é uma coisa bem interessante porque as empresas que financiam as grandes campanhas se sentem às vezes tolhidas de fazer doações com receio de retaliações. Na Bahia, nós tivemos notícias de alguns empresários impedidos de fazer doação ao PSB, que era a teceria via. Eu não vi, mas muitas pessoas, de diferentes lugares, traziam a mesma informação, de que as empresas foram recomendadas a não doar, especialmente para a chapa majoritária, em que a candidata Lídice da Mata (PSB) concorria ao governo. Eu não tive problema com isso porque eu fiz uma campanha pequena com as ajudas que tive, na maioria vindas de pessoas físicas, de advogados que me conheciam e queriam colaborar. Escritórios de advocacia de São Paulo me ajudaram, isso me deixou muito satisfeita. Foi uma campanha modesta, beirando os R$ 3 milhões. 

Com a experiência de agora, o que faria de diferente?

Nada. Faria tudo absolutamente igual. Essa política nova que foi sinalizada por Marina Silva é uma política correta. Só que a Bahia não está ainda preparada para essa nova política. Porque nessa nova política não fazemos atividades de rua, mas sim atividades de convencimento para mostrar para as pessoas, para os formadores de opinião, as nossas propostas, por meio de debates, mesas redondas e palestras em que dialogamos com a sociedade. Isso não é sonhático, isso é real. Onde o político esclareça aos eleitores quais as suas propostas, onde você não tem cabos eleitorais. Eu sempre ouvia falar de cabos eleitorais, mas não sabia como funcionavam as coisas.

E como funcionam?

Há pessoas que aparecem assim: “Eu tenho 10 mil votos, 5 mil votos, 3 mil votos, e custa tanto”. Então, é assim que acontece. Eu não sabia. Esses cabos eleitorais podem ser os próprios prefeitos ou pessoas influentes dentro de determinados círculos. Há até algumas pessoas que investem nesse mercado eleitoral, que vivem disso, lucram com essa atividade de quatro em quatro anos. Alguns podem ser mentirosos, outros não. No meu comitê, cheguei a receber uma proposta escrita de cabos eleitorais, que pediam tanto, atuavam em tal bairro, aí tinha uma lista de despesas que ele me cobrava. E ainda dizia que boca de urna era separado. Nós chegamos ao requinte de ter cabo eleitoral apresentando uma espécie de contrato. Isso está errado.

Há mais bandidos de toga ou mais bandidos no jogo político-eleitoral?

Na realidade, são coisas diferentes. Institucionalizou-se no Brasil — e é aí que nós, cidadãos, temos de estar atentos — que em política vale-tudo. Você não tem escrúpulos, você não tem moral, você não tem lado. Você passa de um palanque para o outro, de um partido para o outro, mesmo que ideologicamente contrário, sem precisar dar satisfação. Você passa rasteira, puxa tapete. E, para tudo isso, eles dizem: “Faz parte do jogo político”. Qualquer coisa que eu estranhava durante a campanha, alguém dizia: “É assim mesmo”. Eu não acho que é assim. Jogo político é um jogo legítimo e necessário em qualquer democracia. E você não ter lado, não ter dignidade moral, não ter proposta, isso não está certo. É uma institucionalização do cinismo. É o vale-tudo. Sair das urnas vitorioso é o que vale. E na Justiça é diferente. Você não tem, dentro da Justiça, um jogo de vale-tudo. O que você tem são episódios em que alguns elementos deletérios agem. São dois campos diferentes que precisam ser igualmente acompanhados pela sociedade. 

A senhora continua na política?

Não sei. Eu digo que ainda estou no processo, porque entendo que a campanha só termina quando acaba o segundo turno, de forma que nós continuamos ao lado do Aécio Neves, como determinou o PSB nacional, depois de avaliação interna, e desta forma permaneço engajada. Recebi pedidos de segmentos da sociedade, tenho sido cobrada para continuar. Mas ainda não sei, ainda não tenho ideia de como as coisas vão acontecer. Agora sei como funciona a máquina. Vamos aguardar.

“Jogo político é um jogo legítimo e necessário em qualquer democracia. E você não ter lado, não ter dignidade moral, não ter proposta, isso não está certo. É uma institucionalização do cinismo. É o vale-tudo”

“Foi uma coisa que me deixou muito preocupada porque nós estamos igual a 200 anos atrás, na mesma situação, com as mesmas práticas. (No semiárido) temos o grande celeiro do voto de cabresto. Eu vivi isso tudo”

“No meu comitê, cheguei a receber uma proposta escrita de cabos eleitorais, que pediam tanto, atuavam em tal bairro, aí tinha uma lista de despesas que ele me cobrava. E ainda dizia que boca de urna era separado. Nós chegamos ao requinte de ter cabo eleitoral apresentando uma espécie de contrato. Isso está errado”

Fonte: Correio Braziliense. Por RENATA MARIZ. Foto Daniel Ferreira/CB/D.A Press – 4/10/13 – 18/10/2014 – – 07:08:30
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