Exclusivo: Vídeo revela entrega de dinheiro vivo a ex-assessor de Agnelo Queiroz

Imagens obtidas por ÉPOCA mostram funcionário de uma fornecedora do governo de Brasília entregando dinheiro a motorista da Secretaria de Saúde do Distrito Federal. O motorista foi assessor de Agnelo Queiroz no Ministério do Esporte

MURILO RAMOS, COM FLÁVIA TAVARES E FILIPE COUTINHO
02/10/2014 15h32 – Atualizado em 02/10/2014 17h05

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Imagem repoduzida do vídeo que mostra gerente de fornecedora do governo do Distrito Federal colocando dinheiro vivo em carro de servidor público. MP suspeita de caixa dois na campanha de Agnelo Queiroz (PT) (Foto: Reprodução)
 

ATUALIZAÇÃO: Após a publicação desta reportagem, a assessoria do governador Agnelo Queiroz informou que Cícero Candido Sobrinho foi exonerado do cargo.

Na tarde do dia 28 de agosto, uma quinta-feira, um Siena vermelho e um Uno branco estacionaram, um atrás do outro, no acostamento da BR-040, num trecho movimentado e próximo a Brasília. Os carros não tinham problemas mecânicos. No Siena vermelho, estavam Ailton Pereira, dono da Agropecuária São Gabriel, e Eduardo Alves, um de seus gerentes. O Uno branco era dirigido por Cícero Cândido Sobrinho, motorista da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal. Ciço, como é conhecido, não é um motorista qualquer. Quando o atual governador de Brasília, Agnelo Queiroz (PT), comandou o Ministério do Esporte, entre 2003 e 2006, Ciço foi seu assessor. É filiado ao PC do B (ex-partido de Agnelo) desde 1997. A desconhecida Agropecuária São Gabriel também não é uma empresa qualquer. Aluga galpões para o governo de Agnelo.

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A cena, registrada num vídeo obtido com exclusividade por ÉPOCA (assista ao lado), dura menos de dois minutos. O motorista Ciço liga o pisca-alerta, sai do Uno e anda em direção ao Siena. O gerente Eduardo Alves faz o caminho inverso. Trocam cumprimentos. O motorista encosta na janela do Siena e conversa com o dono da empresa. Enquanto isso, o gerente Eduardo joga um pacote de notas de cem reais no banco da frente do Uno – R$ 9,5 mil, segundo ele disse posteriormente ao Ministério Público. Tudo acontece rapidamente. Todos voltam aos seus carros, o motorista parece conferir os valores e, em seguida, eles seguem seus caminhos. O Uno dirigido por Ciço é alugado pelo governo de Brasília.
  

O vídeo expõe um caso clássico de corrupção: uma empresa privada paga uma taxa – propina  – para fazer negócio com o governo. Nesse caso, há um elemento adicional: há evidências de que a propina foi encaminhada à campanha eleitoral do PT em Brasília. À propina, some-se a suspeita de caixa 2 nas campanhas de Agnelo Queiroz, candidato à reeleição ao governo de Brasília, e de Rafael Barbosa (PT), secretário de Saúde até recentemente. Ele deixou o cargo para concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados.

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O Ministério Público do Distrito Federal investiga o caso. Os promotores descobriram que a cena registrada em vídeo não foi um episódio isolado. O gerente Eduardo Alves, segundo ele próprio admitiu ao MP quando foi convocado a dar explicações, entrega propina ao motorista do governo desde 2012. Foi nesse ano que a Agropecuária São Gabriel passou a receber do governo por alugar galpões à Secretaria de Saúde. Os galpões servem para acomodar bens sem utilidade, como computadores e móveis velhos. Assim que a Secretaria depositava os recursos na conta da São Gabriel, o dono da empresa, Ailton Pereira, preenchia o cheque no valor da propina e mandava Eduardo Alves descontá-lo na agência 216 do BRB (Banco de Brasília). A agência e os galpões alugados pela secretaria sem licitação ficam no Gama, cidade a 40 quilômetros do centro de Brasília.

Ato contínuo, Eduardo Alves ligava para o motorista, a fim de marcar o local da entrega do dinheiro em espécie – geralmente na porta do banco e em outros locais públicos. De acordo com a investigação do MP, a propina equivalia a 30% do valor dos depósitos. Desde 2012, a Agropecuária São Gabriel recebeu mais de R$ 1milhão do governo do Distrito Federal pelo aluguel de dois galpões. Por isso, os promotores que acompanham o caso trabalham com a hipótese de que quase R$ 300 mil em espécie tenham sido repassados pela Agropecuária São Gabriel aos mandantes do esquema.

Em depoimento ao Ministério Público no final da tarde do dia 29 de setembro, o gerente Eduardo confirmou todas as suspeitas dos promotores que investigam o caso. Afirmou, ainda, que o motorista Cícero dizia que o dinheiro não era para ele; e, sim, para as campanhas de Agnelo Queiroz e Rafael Barbosa. O dono da Agropecuária São Gabriel, Ailton Pereira, comentava com pessoas próximas que estava cansado de pagar propina a Cícero. “Não aguento mais pagar essa m…os caras sempre me pedem dinheiro”, disse a um grupo de funcionários recentemente. Apesar das queixas, Ailton costuma se gabar. Diz conhecer Agnelo Queiroz há muitos anos. Agnelo, de acordo com Ailton, foi médico de um de seus irmãos, nos tempos em que o governador trabalhava como médico no Hospital do Gama. Ailton também tem o hábito de comentar que ajudou Agnelo Queiroz na campanha eleitoral de 2010, quando o petista fora eleito governador do DF. Na prestação de contas da campanha de 2010 de Agnelo, no entanto, não aparecem contribuições de empresas ligadas a Ailton.

O Ministério Público apura, ainda, a possibilidade de que outros galpões alugados pela Secretária de Saúde sejam utilizados como depósitos de material de campanha de Agnelo Queiroz e Rafael Barbosa. A suspeita foi levantada a partir de um outro vídeo (assista ao lado) que integra a investigação. Nele, um Fiat Fiorino branco, com imagens de Agnelo Queiroz e Rafael Barbosa estampadas na lataria, foi flagrado no dia 22 de setembro num galpão alugado pela empresa Almi Imóveis à Secretaria de Saúde. Procurada pela reportagem, a Almi Imóveis diz que o governo está em débito com a empresa há um ano e meio e desconhece o uso que está sendo dado ao galpão.

 

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Um imóvel vizinho a um dos galpões alugados à Secretária de Saúde, também de propriedade da família de Ailton Pereira, é utilizado pelo comitê de outro candidato a deputado federal pelo PT, o deputado distrital Patrício. As investigações apontam que Patrício foi presenteado com a cessão do galpão pelo empresário Ailton Pereira. Na prestação de contas eleitorais de Patrício, não aparecem despesas com o aluguel do imóvel. Questionado pela reportagem sobre essa omissão, Patrício disse que vai prestar contas do aluguel somente no final da campanha. ÉPOCA, então, pediu uma cópia do contrato de aluguel. Somente após três horas do pedido, a campanha mandou a cópia do que Patrício diz ser o contrato de aluguel. Nele só havia a assinatura de Patrício. No documento, não havia assinaturas dos donos do imóvel. Patrício diz conhecer Ailton há 30 anos.

Por meio de nota, o governador Agnelo Queiroz afirma que “rejeita veementemente a existência de prática eleitoral ilegal. Todas as minhas receitas de campanha decorrem de contribuições legais”. O governador admitiu conhecer e ter nomeado Cícero para ser seu assessor no Ministério do Esporte (leia abaixo a portaria da nomeação). “Indicação partidária”, afirmou. Agnelo também disse conhecer o dono da Agropecuária São Gabriel, mas afirma não falar com ele há pelo menos oito anos.

O ex-secretário de saúde Rafael Barbosa, que, na condição de secretário de saúde, assinou contratos (documento abaixo) com a São Gabriel, afirmou jamais ter recebido dinheiro de Cícero nem ter contato com a empresa São Gabriel. “Ele (Cícero) nunca me ajudou em nada. Ele me dá é muita dor de cabeça. Ele não na minha campanha. Não é coordenador da minha campanha. Ele ajuda voluntariamente. Ele ajuda na rua pedindo voto”, disse. Perguntado se Cícero tinha trabalhado com ele no Ministério do Esporte, Barbosa, que acompanha Agnelo há anos, afirmou: “Cícero chegou antes de mim ao Ministério. Ele trabalhou foi com o governador Agnelo no Ministério. Se ele (Cícero) pegou (dinheiro), levou pro bolso dele. Nesse período de eleição tem muito vigarista usando o nome dos outros e extorquindo. Ele (Cícero) tem que responder”.

Ex-secretário de saúde do DF Rafael Barbosa aluga galpões da Agropecuária São Gabriel Ltda em 2011. Ministério Público investiga se doações da empresa para candidaturas do PT foram pagas no caixa dois (Foto: Reprodução)

Em entrevista a ÉPOCA, Cícero disse desconhecer o dono da São Gabriel e Eduardo Alves. Ao ser informado de que havia um vídeo em que era flagrado recebendo dinheiro, Cícero desligou o telefone. Depois disso, a reportagem não mais conseguiu falar com ele. Ailton Pereira e Eduardo Alves não foram localizados pela reportagem.

 

Leia a matéria completa da Época, clique aqui!

 

Fonte: Portal ÉPOCA – 02/10/2014 15h32 – Atualizado em 02/10/2014 17h05


 

 

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