De 23 a 28 de maio, 26 autores do DF participarão do evento. Encontros são realizados em cafés e bares da cidade para resgatar boemia da capital
Por Graziele Frederico, G1 DF Foto: Reprodução/Divulgação – 22/05/2017 – 22:30:00

Brasília recebe um evento literário de 23 a 28 de maio que busca reunir 26 escritores da cidade em bares e cafés para discutir e fortalecer a produção da literatura no Distrito Federal. “Ler, beber e conversar” é o tema do encontro que busca reunir escritores, livros e resgatar a boemia da capital.

“Queríamos fazer alguma coisa que partisse dos escritores, que pudéssemos nos reunir e conversar sobre como movimentar e fortalecer o sistema literário local”, contou um dos organizadores, o escritor Jéferson Assumção.

Assumção nasceu em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e para ele, um dos pontos que faltam em Brasília são as livrarias de rua, os pequenos espaços para reunir e divulgar a cultura que é feita na capital.

“Já que Brasília não tem livrarias de rua, vamos fazer nosso evento nos bares, porque são lugares de encontro, de troca.”

Segundo o escritor, a ideia do Movida Literária veio também com a intenção de resgatar um espírito boêmio na cidade. “Queremos buscar um espírito crítico da cidade e tirar a literatura desse lugar como se estivesse acima da vida das pessoas.”

O escritor relembra que na Europa, durante a Idade Média, as universidades eram lugares habitados por clérigos e os que não conseguiam se enquadrar no sistema de regras da Igreja iam para as tabernas discutir o conhecimento e o que estavam produzindo. Eles ficaram conhecidos como boêmios e é esse sentido histórico de boemia que os organizadores querem trazer para Brasília durante uma semana.

“Queremos fazer um movimento para descolar Brasília da ideia de poder, de burocracia, de corrupção ”, diz o poeta Nicolas Behr.

Para Behr, a cidade é muito estigmatizada e são os movimentos informais e espontâneos que podem desfazer o rótulo de centro administrativo e político. “Acho que esse rótulo incomoda muito e talvez o começo de uma identidade brasiliense seja a negação da autoridade, do poder, do reto, do racional”.

O poeta considera que o grande movimento da capital que já tentou desligar Brasília dessa imagem foi o rock produzido aqui na década de 1980. Para a jornalista e escritora Paulliny Tort, a cidade está ganhando uma autoestima e isso começa a aparecer nas obras produzidas pelos escritores brasilienses.

“A cidade está amadurecendo e começa a ter uma identidade mais marcada, porque embora tenha gente de tantas regiões aqui, Brasília começa a ter uma identidade brasiliense. Vejo como a autoestima da cidade cresceu nos últimos anos e como a cidade começa a se reconhecer, ser dona de uma identidade que aparece também na literatura. ”

Jéferson Assumção conta que vê Brasília em três planos: o local, ligado a questões do Distrito Federal, as dificuldades e particularidades locais; o nacional, sendo Brasília a capital do país e, por fim, um plano internacional, devido a comunidade de embaixadas e organizações internacionais que fazem parte do cotidiano da cidade.

“Os escritores que estão aqui tem a possibilidade de contribuir e absorver essas três camadas e propor um protagonismo. ”

O antropólogo e escritor Maurício de Almeida argumenta que outro ponto favorável para Brasília é a questão geográfica. “A cidade está no centro do país. Tem muita coisa acontecendo no norte, nordeste e Brasília faz essa mediação com o eixo Rio-São Paulo e o Sul. ”

Sobre a distância entre autores do Plano Piloto e as outras regiões administrativas do Distrito Federal, os organizadores afirmaram que houve uma tentativa de aproximação. “Nesta edição temos alguns autores como a Marina Mara e o Jorge Amâncio que já fazem essa ponte, mas para os próximos eventos nossa ideia é levar o Movida para Taguatinga, São Sebastião, Recanto das Emas, Ceilândia e outras”, contou Paulliny.

Segundo Nicolas Behr, há uma “efervescência” cultural fora do Plano e também um desejo de afirmação. “Uma vez estava dando palestra em uma escola de Taguatinga e os alunos começaram a me dizer que só falo de entrequadras e superquadras. Eu contei que falava sobre as superquadras do mundo, mas eles querem falar sobre a cidade deles também.”

Maurício de Almeida diz que vê nos autores periféricos uma autoafirmação maior do que uma reivindicação de inclusão. “Eles estão escrevendo sobre a cidade, não tem uma reclamação sobre a aceitação. Tenho a impressão de que há uma distância, mas esses autores não estão escrevendo sobre o problema de “não nos aceitam na capital” e sim contando sobre o lugar onde estão. ”

Formação de leitores
Jéferson Assumção comenta que para ele, Brasília tem público leitor em potencial, porque a cidade tem nível de renda alto, mas isso não significa que há uma formação de leitores maior na capital.

“Acho que Brasília tem autor e tem público que pode consumir, mas as editoras, livrarias, distribuidoras e toda economia do livro na cidade ainda é incipiente. ”

Segundo Maurício de Almeida, um dos pontos a serem discutidos no evento é como fortalecer e melhorar essa rede de distribuição. “Eu acho que a Movida é um começo porque une as pessoas. Em Brasília tudo é um pouco diluído. Tem muito escritor, mas é difícil de achar. Acho que a primeira coisa interessante é essa soma. Porque esses autores circulam, os livros circulam e as pessoas se interessam. ”

Sobre o papel das escolas na formação de público leitor, os autores não acreditam que a instituição tem conseguido atingir esse objetivo. “Acho que existe uma crença de que a leitura é edificante, que a leitura tem o papel de formar o caráter das pessoas e isso acaba com toda a vontade de ler”, conta Paulliny.

“A literatura é desestabilizadora e o objetivo de que a leitura seja moralizante impede que grandes obras entrem nos currículos escolares. ”

Para Jéferson Assumção, há cinco elementos em uma sociedade leitora que precisam ser trabalhados. O primeiro, segundo ele, é a importância do livro enquanto objeto de destaque no imaginário coletivo. Em segundo lugar, as escolas precisam implantar a cultura da leitura não como obrigação, mas como um hábito. As famílias também têm influência, porque a formação de famílias leitoras, traz a atividade da leitura para a rotina das casas.

Por fim, o escritor explica que o acesso ao livro com livrarias e bibliotecas é fundamental e o preço do livro compatível com a renda da população, o que no Brasil ainda não acontece. “O livro aqui ainda custa mais do que a média de renda das famílias. ”

Serviço:

23 de maio

Sebinho – CLN 406, bloco C, loja 44, Asa Norte
Primeira rodada – 19h
Autores: Tino Freitas e Luda Lima
Mediadora: Alessandra Roscoe
Segunda rodada – 20h30
Autores: Raphael Rocha e Wélcio de Toledo
Mediador: Geraldo Lima

24 de maio

Bar 400 – CLN 410, Asa Norte
Primeira rodada – 19h
Autores: Marcos Fabrício e João Bosco Bezerra Bonfim
Mediadora: Isabella de Andrade
Segunda rodada – 20h30
Autores: André Giusti e Lourenço Cazarré
Mediador: Roberto Medina

25 de maio

Ernesto café – CLS 115, Asa Sul
Primeira rodada – 19h
Autores: Marina Mara e Jorge Amâncio
Mediador: Paulo Paniago
Segunda rodada – 20h30
Autores: Sheyla Smanioto e Paulliny Tort
Mediadora: Nahima Maciel

26 de maio

Martinica – CLN 303, bloco A, loja 4, Asa Norte
Primeira rodada – 19h
Autores: Lisa Alves e Carla Andrade
Mediador: Alexandre de Paula
Segunda rodada – 20h30
Autores: José Rezende Jr. e Maurício de Almeida
Mediador: Maurício Melo

27 de maio

Objeto Encontrado – CLN 102, bloco B, loja 56, Asa Norte
Primeira rodada – 19h
Autoras: Beatriz Leal e Cristiane Sobral
Mediadora: Conceição Freitas
Segunda rodada – 20h30
Autores: Nicolas Behr e Alexandre Pilati
Mediadora: Maxçuny Alves

28 de maio

Bar Raízes, CLN 408, Asa Norte
Primeira rodada – 19h
Autores: Mariana Carpanezzi e Tiago Velasco
Mediadora: Juliany Mucury
Segunda rodada – 20h30
Alexandre Vidal Porto e Marcelino Freire (autor “Boêmio da Vez)

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