“O que vela é acumular cargos e vantagens”

ADVERSÁRIO
O ex-ministro Brizola Neto: o PDT é uma federação de interesses

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O ex-ministro Brizola Neto é considerado um dos poucos amigos da presidente Dilma Roussef. Pedetista com o avô, o ex-governador Leonel Brizola, ele foi escolhido para comandar o Ministério do Trabalho em 2012. No entanto, permaneceu por apenas dez meses no cargo, minado, segundo contou ao editor Rodrigo Rangel, por contrariar interesses nada republicanos da direção do partido.

Por que o senhor critica tão fortemente Carlos Lupi, que afinal preside o seu partido e integra um governo do qual o senhor também fez parte?

Hoje existe uma quadrilha que tomou de assalto a direção do PDT. Lupi e Manoel Dias (atual ministro do Trabalho) são verdadeiros corruptos que têm a cara de pau de permanecer no ministério mesmo diante de um pedido da polícia ao STF para investigar-los. Lupi foi o responsável por jogar no lixo um legado construído durante toda uma vida por meu avô, Leonel Brizola. A tragédia é ver que o patrimônio ético do PDT foi jogado no lixo. Hoje o partido é uma federação de interesses. O que vale para esses dirigentes é acumular cargos e vantagens. Ou seja: um balcão de negócios.

A que o senhor se refere? A gestão de Lupi no ministério foi de seguidos escândalos, favorecimentos e propinas milionárias. O cálculo que se faz é que tenha havido desvio de mais de 400 milhões de reais. Esses atuais dirigentes do partido, Lupi e Manoel Dias, são figuras repugnantes. O Lupi mudou de padrão de vida em relação ao jornaleiro que eu conheci. Quanto a Manoel Dias, ele é apenas um empregado do Lupi.

O que o senhor fez de diferente em relação a Lupi? Quando estive no governo, conseguimos fechar a fábrica de sindicatos que havia dentro do ministério. O que acontecia que fazia com que os processos ficassem sujeitos ao tráfico de influência? Chegou a haver 8000 pedidos acumulados. Para quê? Negavam, e os interessados ficavam sujeitos a toda sorte de influência da direção do ministério. Ficavam à mercê das vontades do ministério. É o ambiente ideal para o tráfico de influência, tanto que se criou ali uma expressão: fábrica de sindicatos. Quem era o gerente dessa fábrica? Era o Lupi. Eu fechei a fábrica.

Ao admitir o grupo de Lupi de volta no governo, a presidente Dilma cedeu ao fisiologismo? A minha ida para o ministério foi à revelia dessa direção, num movimento que a presidente Dilma fez para enfrentar as cúpulas partidárias, das quais ela acabou se tornando refém. Eu lamento muito que a política nacional, e o sistema político, crie governos dependentes de bases fisiológicas. Hoje a presidente Dilma é refém de um exército de mercenários que formam sua base aliada. No Brasil, os partidos, com raríssimas exceções, não são programáticos nem democráticos. Só têm compromisso com sua manutenção no poder, com a ocupação de cargos e com a obtenção de vantagens junto ao poder público. Essa é a grande tragédia da política brasileira.

O senhor se decepcionou com a presidente? Eu tenho uma grande admiração pela presidente Dilma. É importante lembrar que em 1989 e 1994 ela votou no Brizola e não no Lula. E ela tem um pouco daquilo que durante uma vida inteira eu vi no meu avô, e compromissos sinceros com a trajetória do trabalhismo brasileiro. Talves ela não tenha conseguido avançar mais por se tornar refém de uma base parlamentar que põe em primeiro lugar seus interesses pessoais, regionais, eleitorais. O que eu posso afirmar é que ela tentou à exaustão combatê-los. Mas os interesses eleitorais e a necessidade de ter votos no Congresso falaram mais alto.

Por que o senhor deixou o ministério? O Lupi queria continuar mandando e desmandando no ministério, como ele manda hoje no ministério do Manoel Dias, com todas as máculas que carrega, seja na concessão de registro sindical, seja na relação com ONGs que recebem verbas do ministério. Era a maneira que ele tinha de continuar influenciando e dando continuidade às suas práticas não republicanas.

Em algum momento a presidente admitiu que estava demitindo o senhor porque precisava ceder ao fisiologismo?
Interlocutores aconselharam mal a presidente, dizendo que era necessária, para recompor com o PDT, a volta do grupo do Lupi ao Ministério do Trabalho. A presidente conversou comigo e disse que estava entristecida, que estava fazendo um ato que não era da sua vontade. Mas que se viu obrigada pelas circunstâncias a me substituir e devolver o ministério à direção nacional do PDT.

Revista Veja edição 2378 – ano 47 – n° 25 – 18 junho de 2014  

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