“Os dados do TCDF foram manipulados por forças que tentam abalar a credibilidade do governo”

Após cinco meses de governo, socialista aborda as questões sobre o dinheiro nas contas do GDF quando tomou posse. Rodrigo Rollemberg sustenta que oposição procura desvirtuar números para abalar a sua gestão. Secretários dizem que o pior já passou. 

O governador Rodrigo Rollemberg (PSB) saiu em defesa da própria gestão, ontem, em coletiva … convocada para esclarecer números da auditoria do Tribunal de Contas do DF (TCDF) sobre a situação financeira do GDF no fim do ano passado. O socialista vive momentos difíceis desde que assumiu o Palácio do Buriti e, assim, decidiu mudar a estratégia política e rebater pessoalmente as críticas: “Os dados do TCDF foram manipulados por forças que tentam abalar a credibilidade do governo”, disse. Até aqui, as pautas negativas do Executivo vinham sendo respondidas pelo chefe da Casa Civil, Hélio Doyle. Agora, Rollemberg decidiu que não pode tratar apenas de questões positivas.

A auditoria, logo nas primeiras páginas, constata: “O montante de disponibilidade financeira da administração direta, deduzindo-se os recursos relativos a fundos e ao Poder Legislativo, em 31 de dezembro, era de R$ 4,7 milhões”. Rollemberg, quando chegou ao governo, havia divulgado que recebeu o Executivo com “R$ 64 mil na Conta Única do Tesouro”.

Ele explicou a diferença nos números e voltou a criticar o antecessor, Agnelo Queiroz (PT). “Esse valor, R$ 4,7 milhões, foi encontrado em mais de 1,2 mil contas existentes no GDF. Claro que não tínhamos como somar os saldos de todas essas contas. E o relatório afirma ainda que o valor de R$ 4,7 milhões não pode ser avaliado isoladamente, pois depende de comparação com as obrigações financeiras não quitadas no ano passado, que ficaram para serem resolvidas em 2015”, disse. “O TCDF ainda confirma nosso número, de que recebemos o Executivo com mais de R$ 3 bilhões em dívidas”, argumentou.

Alegando ter recebido o GDF na maior crise financeira da história, o socialista chega ao sexto mês de governo também com problemas de ordem política. Além das dificuldades de fluxo de caixa, o chefe do Executivo local tem convivido diariamente com as reclamações de políticos, entidades do setor produtivo e sindicatos — que cobram mais diálogo — e a preocupação de servidores públicos quanto à suspensão de benefícios e atraso em pagamentos. Fora isso, há disputa por espaço entre os principais secretários.

Brigas

Desde a montagem do primeiro escalão, há desentendimentos no núcleo central do GDF. A escolha do jornalista Hélio Doyle para a Casa Civil, posto de maior destaque na gestão, deixou insatisfeitos integrantes do PSB. Nos últimos 15 dias, diante de críticas ao governo, figuras do partido aproveitaram o momento para tentar desestabilizá-lo no cargo.

As articulações dos socialistas, contudo, nem sempre dão certo — e não só por causa da falta de vontade do governador. Os colegas de partido travam embates internos e, às vezes, não se entendem. Dois expoentes da articulação política do GDF, o secretário de Relações Institucionais e Sociais, Marcos Dantas, e o chefe de gabinete do governador, Rômulo Neves, compartilhavam do desejo de presidir a legenda e, enquanto cumpriam expediente no Executivo local, também articulavam para ganhar o controle do PSB. Rômulo, entretanto, não teve sucesso na ofensiva e retirou a candidatura antes mesmo da eleição interna. À frente do partido há 10 anos, Dantas tem maior liderança na base e será reconduzido, depois de muita negociação, ao comando nos próximos dois anos.

Recuos

Desde o começo do ano, o governo anunciou diversas medidas e teve que recuar logo depois em muitas delas, seja por derrota na Câmara Legislativa, seja por erros internos. Os adversários sempre aproveitam os recuos para criticar Rollemberg e afirmar que ele não tem pulso. Exemplo ocorreu com o Pacto por Brasília, que incluía ações a fim de aumentar a arrecadação. Entre elas, estava o aumento do IPTU, que acabou reprovado pelo Legislativo. Outro: no fim do mês passado, a Secretaria de Educação soltou uma circular com várias regras a serem seguidas por alunos e professores no trato com a imprensa. Dias depois, Rollemberg classificou o documento como “um equívoco”.

Nomeações suspeitas seguidas da demissão dos indicados após terem a vida pregressa divulgada pela imprensa também chamaram a atenção. Primeiro, o Correio denunciou Antônio Fúcio, nomeado para diretor do Detran. Ele tinha levado 56 multas em apenas um ano e acabou exonerado do cargo. Para diretor de Comercialização da Terracap, Rollemberg escolheu Fábio Rolim. Depois de o Correio informar que Rolim era velho conhecido de duas das maiores CPIs do Congresso Nacional da última década, ele caiu do cargo. O mesmo ocorreu com Roberto Leda, indicado para diretor de Educação no Trânsito do Departamento de Estrada e Rodagem (DER-DF): ele coleciona 62 multas de trânsito e, por isso, foi demitido da função.

Divergências, só

Marcos Dantas afirma que o governo entrou na fase de colocar as promessas em prática

Críticas sobre a postura política de Rollemberg são feitas até mesmo por aliados. Acordos negociados com antigos adversários incomodam socialistas — para eles, a posição do governador não é condizente com o histórico progressista e de esquerda que construiu ao longo da vida pública.

A visita de Rollemberg ao ex-governador Joaquim Roriz também desagradou muitos governistas. O governador sempre foi um crítico tenaz da ala rorizista e liderava a oposição ao ex-governdor quando era deputado distrital. Agora, ele conta com o apoio de Liliane Roriz, vice-presidente da Câmara Legislativa, e fez gestos de aproximação ao antigo adversário.

O chefe da Casa Civil, Hélio Doyle, reconhece que o governo “tem cometido erros”, mas afirma que isso é comum em início de mandato. “Temos algumas insuficiências. Um fator relevante é que a gestão de crise de ‘incêndios’, de urgências, tem ocupado a maior parte do nosso tempo em todas as áreas. Cada dia tem um problema, seja em serviços como o Na Hora, seja uma greve de ônibus. E isso gasta muita energia e tempo da equipe, de um modo geral”, disse.

Fase

Marcos Dantas, por sua vez, acredita que o momento mais espinhoso passou e diz que “o governo está entrando em uma segunda fase, de focar na gestão e implementar todas as promessas”. Sobre as relações internas, ele admite que há divergências, mas nada que comprometa o andamento dos trabalhos. “Essa história de que o núcleo duro tem problema não existe. Temos características pessoais, somos honestos uns com os outros, quebramos o pau, mas nos entendemos logo em seguida. Temos dimensão da nossa responsabilidade, deixamos questões menores de lado e vamos tocando o governo”, garante. Mesmo tendo sofrido pelo menos cinco derrotas na Câmara Legislativa, Dantas faz um balanço positivo da relação com o parlamento. “É uma casa legislativa que está no seu papel. Temos que ver que quase tudo o que propusemos foi aprovado. A Câmara entende o momento de crise”.

Carlos Moura/CB/D.A Press

Fonte: Correio Braziliense – 02/06/2015 – – 16:29:10