Para reflexão: Oração de uma criança com Síndrome de Down

A oração precisa ser concreta e dizer respeito à própria vida

 

“Senhor, nasci hoje. Parti da tua vida para viver com os meus queridos até o dia que decidires.

13 de outubro de 2011 nasceu o Daniel. Deixou o Céu e veio tornar a nossa vida docemente mais complexa e alegre. Trouxe vários desafios adicionais com a necessidade de estimulação, mas, em compensação, trouxe vários abraços e beijos. Como o Daniel e alegre e comunicativo. Feliz, feliz, feliz e faz feliz todos os que tem a honra de com ele conviver…

Senhor, nasci hoje e, nos braços da minha mãe, se confundem a alegria e a angústia.

Nasceu fraquinho, magrinho e com dificuldade de mamar. Tinha que de hora em hora, com a ajuda da Tia Lucy, que ser alimentado. Que angústia, que medo de perdê-lo. Ao mesmo tempo, quanta alegria em cada conquista, em cada grama de peso adquirido.

Senhor, já que o sabes, por que nasci diferente? Meus olhos são diferentes, minhas mãos são mais gordinhas, meus lábios e meu rosto são diferentes…

Nos já sabemos porque nasceu diferente, nasceu diferente para nos tornar diferentes, para nos tornar melhores. Não apenas a nós, seus pais e irmãs, mas todos os que convivem com a sua alegria, com a sua simpatia.

Por que minha mãe está chorando? Por que todos me olham como querendo dizer: “Que pena que nasceu assim…”?

Choramos não porque você é diferente, mas pelos que pensam que ter nascido diferente é motivo de pena. Pena, temos é de quem o olha com diferença ou indiferença. É verdade que nos preocupamos, não pelas suas diferenças, mas pelos que são indiferentes, pelo mal que os que discriminam podem lhe causar.

Senhor, tu sabes tudo e guias as mentes. Diz-lhes com tua voz divina que eu também vivo e tenho sentimentos.

Mais do que sentimentos, tens, meu filho, sentimentos alegres e nobres. Tu é capaz de abraçar os torpes e preconceituosos. Não paga o mal com o mal, paga aos malvados com um sorriso, com um abraço e com um beijo. Coisa que não sabemos fazer, talvez por não termos as diferenças que tens. Deus diz a todos que tens sentimentos e que vives por meio dos teus abraços e beijos.

Explica-lhes que sou como aquelas árvores pequenas e mais frágeis, que, entre as altas montanhas, sou somente aquele pequeno monte.

As pequenas árvores e montes são os mais acessíveis. Das pequenas árvores é mais fácil se extrair os frutos. Os pequenos montes são mais facilmente escalados. Aos bons e maus cristãos, Cristo disse “deixe vir a mim os pequeninos”. Você, nascido diferente, nascido com síndrome de Down, precede, nos céus, a maioria, os fortes. Precede os que o discriminam, os que lhe olham com indiferença. Tens mais direitos ao Céu do que a maioria.

Mas conta-lhes que eu brinco e danço, diz-lhes que eu choro e rio, que aprendo e que correrei com eles.

E como brinca, e como corre e como ri. A sua inocência é maior do que a inocência de muitos a quem chamam de “normais”. E brinca com qualquer um, novo, velho, branco, negro, homem ou mulher. Talvez esse seja o maior diferencial seu em relação às outras pessoas. Você não conta cromossomos, cor, sexo, idade ou outra coisa qualquer. Você simplesmente vive.

Diz-lhes, Senhor dos céus, que eu também sou filho deles, que adoro meus irmãozinhos quando estão comigo.

E como as suas irmãzinhas amam estar com você, como amam brincar com você. Como os seus avôs, tios, primos e madrinhas e padrinhos o amam. Como os seus coleguinhas da escola adoram brincar com você, que os ensina a não olhar as diferenças, mas as convergências.

E àquele homem que olha de longe minha forma diferente de andar, ensina-o a me amar, porque eu também sou filho.

Que Deus tenha misericórdia destes, que tendo a oportunidade de tornar-se diferente, prefere a mesmice que não edifica, prefere o vazio de repetições de fórmulas. Que o coração dessa gente seja tocado e transformado, que a Sua misericórdia chegue a essas almas vazias, apodrecidas e carcomidas pelo preconceito.

Senhor, Tu compreendes a alegria que sinto quando brinco com meus irmãos em casa. Tu conheces meu interior e tudo o que eu sonho e penso.

É por isso, Daniel, que estás sempre a sorrir e a distribuir beijos e abraços. Suspeito que o seu diálogo com Deus seja direto. Não é sem razão que muitos preferem dizer síndrome do amor no lugar de síndrome de Down. O amor é a linguagem de Deus, é a sua linguagem.

Tu que deste tua vida por todos, sem distinção, mostra às pessoas meus anseios mais profundos. Conta-lhes que eu canto e amo, que brinco e rio. E diz-lhes sempre, meu Deus, que, assim como eles, eu também tenho sentimentos.”

É o principal sentimento que tens é, sem dúvida, o amor, que, ao ser compartilhado, não diminui, ao revés, multiplica-se.

Cada criança com síndrome de Down é como um anjo do céu que vem morar um tempo entre nós para nos encher de amor e paz!

Mais do que um anjo, pois os anjos não têm a dignidade dos homens, que não têm a dignidade de uma pessoa cuja diferença é ter mais amor, tanto amor que precisou ter um cromossomo extra.

(Texto publicado originalmente no blog Tu, mi principio y mi fin)

Fonte: Blog Sabor Melhor – 27/05/2015 – – 23:49:32