Confronto entre índios e forças de segurança no coração da capital federal é mais um capítulo do descontentamento generalizado às vesperas do torneio de futebol. Confusão repercute negativamente no exterior

Indígena tenta escapar da fumaça da bomba de gás lacrimogêneo utilizada pela polícia para conter o protesto

Quase um ano depois de manifestantes subirem na cúpula do Congresso em meio à série de protestos que marcou a Copa das Confederações, índios conseguiram ontem invadir o terraço do mesmo local. Em seguida, ao se juntar a pessoas que protestavam contra o Mundial nas proximidades do Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha, transformaram a sede do poder em mais um palco das mobilizações que se alastram pelo país às vésperas do evento. O ato terminou em confronto com a polícia, levou à suspensão de visitas à Taça do Mundo e complicou a vida de quem tentava voltar para a casa na capital federal.

Cerca de 500 lideranças indígenas de 100 etnias participaram do protesto, que tinha como pauta a morosidade dos processos de demarcação de terra e o descaso do governo federal com o tema. Os índios começaram a manifestação em frente ao Palácio do Planalto. Tentaram subir a rampa do local, mas acabaram impedidos pelo policiamento. Por volta das 16h, eles aproveitaram uma pequena passagem que liga o Eixo Monumental à cúpula do Congresso para invadi-la. Com cocares, arcos e flechas, cantaram e dançaram no terraço que sustenta as cúpulas da Câmara e do Senado.

Cerca de 100 policiais monitoraram o ato no Congresso. Antes de subir a Esplanada dos Ministérios, os índios entraram no espelho d’água em frente à sede do Poder Legislativo. Por volta das 16h30, eles se juntaram, na Rodoviária, a outros grupos que haviam marcado um protesto contra o Mundial, incluindo o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e o Comitê Popular da Copa. Inicialmente, a Polícia Militar informou que havia 2,5 mil pessoas no grupo. Mais tarde, o Governo do Distrito Federal disse que eram 1 mil. O grupo seguiu, então, para o Mané Garrincha, onde começou a confusão.


Representantes de 100 etnias ocuparam a rampa do Congresso para reclamar da morosidade do governo na demarcação de terras


Policial militar mostra flecha disparada pelos índios durante o confronto

À frente do ato, os índios tentaram furar um bloqueio armado pela cavalaria da Polícia Militar, que tentava impedir o avanço do movimento ao Mané Garrincha, onde está sendo exposta a Taça do Mundo. A polícia reagiu com bombas de gás lacrimogêneo. Enquanto parte dos índios e outros manifestantes tentavam fugir dos efeitos do gás, outros revidaram com flechas. Um policial militar da cavalaria que estava na contenção da manifestação acabou atingido na perna por uma lança. Elias Ferreira teve ferimentos leves e foi atendido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.

Os índios conseguiram fechar todo o Eixo Monumental, no sentido Esplanada/Sudoeste, por cerca de uma hora, o que complicou o trânsito em toda a capital federal. Quem tentou sair do Congresso teve dificuldades. Estagiária na Câmara, Érika Silva, 16 anos, esperou por mais de 40 minutos pelo ônibus que deveria ter passado às 17h40 para Samambaia Norte. “Cheguei mais cedo na parada com a esperança de tentar fugir da confusão, mas não adiantou. Protestos como esse atrapalham muito a vida das pessoas. As manifestações são importantes, mas precisam ser pacíficas”, disse.

Repercussão
Depois de uma hora de correria, gás lacrimogêneo e flechas, a confusão ganhou repercussão internacional. A agência de notícias Reuters chamou a atenção para o trânsito fechado pelos índios “trajados a caráter que se juntaram aos sem- teto”. A italiana Ansa destacou o número de 2 mil pessoas marchando rumo ao estádio no protesto anti-Copa. O argentino Clarín publicou foto em que policiais militares montados a cavalo se aproximam de índios com arcos e flechas nas mãos.

Na França, o jornal progressista Libération destacou o uso do gás lacrimogêneo e a repressão contra a manifestação de índios e sem-teto na capital federal. “A 16 dias do Mundial de futebol no Brasil, policiais do batalhão de choque enfrentaram mais de mil manifestantes, inclusive crianças e idosos, impedindo-os de se aproximarem do estádio Mané Garrincha, que acolherá vários jogos da competição”, escreveu a publicação.

“Como é que não tem dinheiro para demarcar terra, para indenizar os pequenos produtores, e tem dinheiro para ter estádio de qualidade, tudo no padrão Fifa?”, questionou Sônia Guajajara, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). A entidade promove até amanhã uma série de manifestações na capital federal.

Sônia compara as vultuosas somas investidas no Mundial com o abandono das aldeias. “As demarcações estão paralisadas, a saúde indígena que é um caos, e, de repente, o Estado tem dinheiro para fazer estrutura para receber turistas. Nós não somos turistas, nós vivemos aqui, e queremos dignidade”, queixa-se Sônia.

Pela manhã, os índios protocolaram uma queixa-crime no Supremo Tribunal Federal contra os deputados Alceu Moreira(PMDB-RS) e Luis Carlos Heinze (PP-RS) por supostas afirmações racistas em novembro de 2013. Na ocasião, gravada em vídeo, Heinze afirmou que índios, quilombolas, gays e lésbicas são “tudo o que não presta”.
Colaboraram Kelly Almeida e Saulo Araújo

Correio Braziliense

Deixe um comentário