SaaS e ERPs hoje: quem resolve o presente — e quem está se preparando para a virada

Conteúdo Negócios Startups

No balcão do pequeno comércio da Asa Norte, a máquina de cartão toca a música de sempre. Vende-se, recebe-se — e, cada vez mais, recolhe-se o imposto no ato. É a cena que dá o tom da transição brasileira rumo ao IVA dual (CBS + IBS), autorizada pela Emenda Constitucional 132 em dezembro de 2023 e já em fase de detalhamento por leis complementares. Não é exagero dizer que o software de gestão virou infraestrutura do país. E é por isso que vale entender quem resolve a dor de hoje e quem está, de fato, se mexendo para o amanhã. (Planalto)

Nos próximos parágrafos, eu te levo por um passeio curto — e pé no chão — pelo que está mudando na operação dos ERPs e das plataformas contábeis, e por que Brasília, discretamente, começa a emplacar soluções de contabilidade e automação com sotaque local.

O que já dá conta do recado — agora

Se você é gestor ou contador, conhece bem o “kit sobrevivência”: emissão de notas, conciliação, folha e um fluxo minimamente organizado com o escritório. Nesse terreno, os ERPs em nuvem e as contabilidades digitais seguirão sendo úteis; a novidade é que o “básico bem-feito” precisa conviver com regras novas e com um jeito novo de pagar.

O governo tem dito com todas as letras: o split payment — esse “PIX dos impostos” — não cria tributo novo; ele automatiza o que já existe, em fases, para interferir o mínimo possível nas práticas comerciais. Troque a imagem mental: em vez de recolher depois, parte do pagamento vai direto para a CBS/IBS. Tesourarias e ERPs já sentem: acabou o “float”. É menos romance e mais engenharia de caixa. (Serviços e Informações do Brasil)

Em paralelo, a promessa de declarações mais pré-preenchidas e integrações oficiais exige uma postura quase obcecada com qualidade de dados: cadastro limpo, NCM/CST/CFOP corretos, trilhas de auditoria. Não é glamour — é o que separa quem passa no “pré-preenchido” de quem herda um problema. O hub da Fazenda tem guias e materiais atualizados para acompanhar essa corrida. (Serviços e Informações do Brasil)

O que separa o “ok” do “preparado”

A régua subiu. Não basta emitir nota e rodar folha: estar pronto para a virada significa ter (1) um motor fiscal que aguente CBS/IBS com regras por estado e município, (2) conviver com dois sistemas entre 2029 e 2032 sem gambiarras e (3) lidar com split e pré-preenchidos sem estourar o contas a receber. Acredite: a diferença entre um software “bonito” e um software confiável está nas entranhas — versionamento de regras, testes automatizados, logs que prestam contas. (Senado Federal)

No capital, isso tem nome e sobrenome: investimento em plataforma. Não por acaso, vimos o private equity Warburg Pincus colocar US$ 125 milhões na Contabilizei (Warburg Pincus), validando a tese de automação em escala. E, neste ano, a europeia Visma abriu a porteira no Brasil ao comprar a ContaAzul (Valor Econômico), mostrando que nosso ERP para PMEs entrou no radar global. O recado do dinheiro é simples: quem entrega processo robusto, IA útil (com explicação, não caixa-preta) e canais de crescimento vai mais longe.

Por que Brasília começa a aparecer no mapa

Brasília tem seus próprios músculos: Sebrae Startups com programas nacionais e regionais, o Parque Tecnológico Biotic (um polo que aproxima empresas, governo e academia) e editais de fomento como o Start BSB e o Desafio DF da FAP-DF. Quando capital, infraestrutura e problema real se encontram, o que nasce são equipes que falam a linguagem da conformidade e entendem o tempo do setor público — algo precioso numa transição longa como a da reforma. (Sebrae)

Nesse ambiente, três nomes ajudam a contar a história — sem aprofundar demais aqui, porque essa é a missão da terceira matéria.

  • Facilite opera a ponta mais “mão na massa” do agora: contabilidade digital com ERP integrado, emissão de nota, controle financeiro e suporte humano. Resolve o cotidiano e pode — se quiser — pisar mais fundo no motor fiscal para a etapa CBS/IBS. (Facilite)
  • Numix, fundada pelo sul-coreano John Park depois de se mudar para o Brasil, em parceria com Lucas Vieira eles apostam em automação com IA para tarefas intensivas de linguagem (classificação, conferência, reconciliação). “Quis ver se dava para resolver o problema tributário com IA”, me disse Park na entrevista. “Se a gente derruba custo operacional, a contabilidade alcança mais empresas.”
  • Aracê carrega no nome a pista do que quer ser: “sol/amanhecer” em tupi-guarani. Traduzindo do poético para o prático: transparência radical entre gestor e contador, um painel único que mostra riscos e pendências com IA explicável, e um produto já desenhado para a era CBS/IBS. A equipe (Lucas Zanetti, Pedro Druck, Guilherme Amaral e Gabriel Faria), liderada por Danrley Pereira, aponta para uma tese simples: a vantagem não está em “mais botão”, mas em reduzir retrabalho com explicação e trilhas de auditoria.

Note que cada uma ocupa um degrau dessa escada: Facílite guarda o hoje vivo e funcional; Numix tenta mudar o custo da operação; Aracê organiza a conversa — e a responsabilidade — entre quem faz e quem decide. Na terceira matéria, volto a elas com lupa: roteiro tecnológico, produto e o que prometem entregar na travessia até 2033.

Antes de fechar, duas verdades úteis

  1. Não há bala de prata. Reforma tributária é uma obra em movimento. Vale acompanhar o hub oficial e, no Congresso, a trilha de votações — ontem mesmo a CCJ do Senado avançou mais uma peça do quebra-cabeça. (Serviços e Informações do Brasil)
  2. Software bom é o que não te deixa na mão. Peça prova — de logs, de versões de regra, de simulação com split. O resto é brinde.

Links para seguir de perto

  • EC 132/2023 (texto oficial) — Planalto. (Planalto)
  • Reforma Tributária (materiais, vídeos, leis complementares) — Ministério da Fazenda. (Serviços e Informações do Brasil)
  • Split payment: diretrizes do governo — notas de mar/2025 e mai/2025. (Serviços e Informações do Brasil)
  • Checagem independente (split não cria imposto) — Reuters. (Reuters)
  • Capital e consolidação — Warburg → Contabilizei; Visma → ContaAzul. (Warburg Pincus)
  • Ecossistema do DF — Sebrae Startups, Biotic, Start BSB / FAP-DF. (Sebrae)

 

Por Danrley Pereira – Da Redação do Gama Cidadão.