Ataque dos EUA à Venezuela testa liderança diplomática de Lula em ano eleitoral

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Ataque dos EUA à Venezuela aumenta a tensão internacional e desafia a diplomacia do governo Lula, que precisa administrar impactos políticos e estratégicos em pleno ano eleitoral.

O recente ataque dos Estados Unidos à Venezuela elevou a tensão internacional e colocou o governo brasileiro em uma posição delicada. Em pleno ano eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta o desafio de equilibrar a defesa da soberania venezuelana, a preservação das relações diplomáticas com Washington e os impactos políticos internos dessa crise.

Nos últimos meses, Lula vinha tentando reposicionar o Brasil como um ator relevante na mediação internacional e se aproximar do governo Donald Trump, interlocução que resultou em avanços importantes, como a retirada de parte significativa das sanções contra o Brasil, o fim do tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros e o arrefecimento de pressões diplomáticas envolvendo figuras políticas brasileiras. O ataque norte-americano, porém, muda o cenário e exige uma resposta cuidadosa do Palácio do Planalto.

O presidente brasileiro condenou publicamente o bombardeio em Caracas e a captura de Nicolás Maduro, classificando a ação como “uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e um precedente extremamente perigoso para a comunidade internacional”. A declaração reafirma a tradição diplomática brasileira de defesa da não intervenção, mas, ao mesmo tempo, coloca Lula em uma corda bamba política. O Brasil precisará manter canais de diálogo com os EUA, sem abrir mão do protagonismo regional e dos princípios históricos da política externa nacional.

Internamente, o tema é sensível. Na campanha de 2022, a oposição explorou a relação histórica entre Lula e Maduro, associando o petista à defesa do regime venezuelano. Em 2024, pesquisas indicaram desgaste na imagem do presidente após declarações minimizando a crise democrática na Venezuela. Desde então, Lula passou a calibrar o discurso: não reconheceu o resultado das últimas eleições venezuelanas e cobrou mais transparência do governo Maduro — uma tentativa clara de se afastar politicamente do líder chavista e reduzir o custo eleitoral dessa associação.

A crise ganha ainda mais peso diante das graves acusações feitas pelo ex-chefe da inteligência chavista, general Hugo “El Pollo” Carvajal, que, em denuncia a Donald Trump, afirmou que Nicolás Maduro mantém ligação com o Cartel de los Soles e teria financiado ilegalmente, ao longo de 15 anos, partidos e líderes de esquerda em diversos países, incluindo o Brasil. Embora Carvajal esteja preso nos EUA e busque “se redimir”, as denúncias adicionam um componente explosivo ao debate internacional e doméstico.

Na minha avaliação, Lula precisará demonstrar grande habilidade estratégica para atravessar esse cenário. Ele não pode se arriscar politicamente a ponto de alimentar narrativas da oposição, mas também não pode se omitir — isso seria um erro histórico e diplomático. O Brasil tem tradição de mediação e defesa da soberania e não pode abrir mão desse papel. O desafio agora é manter firmeza diplomática, sensibilidade política e clareza estratégica em um momento em que qualquer movimento pode impactar diretamente o cenário eleitoral de 2026.