Com 51,75% dos votos válidos, presidente vira sobre o senador do PL no segundo turno e se torna o primeiro candidato a perder o primeiro turno e vencer a eleição presidencial; Flávio termina com 48,25%
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República neste domingo (25), ao vencer Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. Com 100% das urnas apuradas, o petista terminou com 51,75% dos votos válidos, contra 48,25% do senador — uma diferença final de 3,5 pontos percentuais.
O resultado consolida a primeira virada de um candidato que havia perdido o primeiro turno na história das eleições presidenciais diretas desde 1989. É também o quarto mandato de Lula, feito inédito na política brasileira.
A virada construída ao longo da noite
A apuração começou com Flávio Bolsonaro à frente. Com 20,05% das seções, o senador somava 50,41% contra 49,59% de Lula, impulsionado pela contagem inicial das regiões Sul e Centro-Oeste. A liderança do PL durou pouco mais de uma hora.
A inversão veio com a entrada dos votos do Nordeste e de parte do Sudeste. Quando a apuração chegou a 87,66% das seções, Lula já aparecia com 51,50% e a vantagem não parou de crescer até o fechamento em 51,75% — margem quase um ponto acima da projetada pelo Datafolha no início da noite.
O primeiro turno, em 4 de outubro, havia terminado com Flávio à frente: 47,03% (56.104.268 votos) contra 45,16% de Lula (53.879.538 votos). A distância de aproximadamente 2,2 milhões de votos a favor do senador foi revertida em três semanas.
Desde 1989, nenhum candidato que largou atrás no primeiro turno havia vencido a eleição presidencial. Em 2014, Dilma Rousseff (PT) chegou a aparecer atrás de Aécio Neves (PSDB) nas pesquisas do segundo turno, mas havia vencido a rodada inicial — diferença decisiva em relação ao que ocorreu agora.
Um domingo de urnas prorrogadas
O dia da votação foi atípico. Às 17h01, um minuto após o encerramento previsto, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a prorrogação da votação por duas horas, até as 19h, em todo o país. A liminar atendeu pedidos das duas candidaturas, que relataram problemas no transporte de eleitores por causa de chuvas e de obstáculos à liberação do transporte público em dez estados, entre eles São Paulo e Bahia.
Pouco depois, o ministro esclareceu o alcance da decisão: a prorrogação valeria apenas nos locais onde as urnas ainda estavam abertas no momento da determinação. Urnas já lacradas não poderiam ser reabertas.
O episódio atrasou a divulgação dos resultados e fez a apuração ser pausada e retomada pelo TSE. Foi a primeira vez na história que uma votação foi adiada em todo o território nacional.
Como a campanha virou
O primeiro turno deixou Flávio Bolsonaro em posição confortável. O senador falou como eleito, viu alianças se consolidarem à direita e chegou a sugerir uma mudança constitucional para “redemocratizar o Brasil”.
Lula reagiu na semana seguinte: trocou o comando da campanha e entregou a estratégia digital ao deputado André Janones (Rede-MG), que montou o canal “Exército do Lula” no WhatsApp — estrutura que chegou ao pleito com mais de 10 milhões de seguidores. Na reta final, o governo anunciou a proibição das bets e o reajuste do Bolsa Família, medidas que ajudaram a impulsionar o voto em segmentos como o eleitorado feminino.
O segundo turno teve dois debates ao vivo, algo inédito em eleições presidenciais brasileiras, promovidos pela Band e pela Globo. O primeiro foi marcado por grosserias; o segundo, na noite de sexta-feira (23), teve mais comedimento. O risco da volta de um Bolsonaro ao poder também reativou a militância de esquerda e eleitores de centro, com manifestações organizadas de forma mais espontânea do que nos atos sindicais tradicionais.
O quarto mandato e o peso da idade
Aos 80 anos — completa 81 na próxima terça-feira (27) —, Lula é o ocupante mais velho do Palácio do Planalto na história. Com o resultado, soma sete disputas presidenciais e quatro vitórias: 2002, 2006, 2022 e 2026. Salvo mudanças na legislação, este será seu último mandato.
O presidente acompanhou a apuração com a família e correligionários em um hotel na região central de São Paulo.
O que a derrota significa para a direita
Para o campo bolsonarista, o resultado abre uma disputa por protagonismo. Sem mandato a partir de 2027 — o senador não concorreu à reeleição no Rio de Janeiro —, Flávio perde o espaço de articulação que ocupava no Congresso.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, reeleito em primeiro turno, aparece como principal nome para ocupar esse vácuo até 2030. Ainda assim, os mais de 48% dos votos válidos obtidos por Flávio atestam que o sobrenome Bolsonaro segue como ativo eleitoral relevante — Jair Bolsonaro, pai do senador, está preso por tentativa de golpe de Estado.
A campanha do senador não reconheceu o resultado de imediato. O chefe da campanha falou em “golpe judiciário”, e aliados levantaram suspeitas de fraude sem apresentar provas — roteiro que repete o de 2022.
O que muda para o Distrito Federal
O novo mandato de Lula será exercido em convivência com um GDF de campo político oposto. Celina Leão (PP) foi reeleita governadora do Distrito Federal no mesmo domingo, com 57,21% dos votos válidos, contra 42,79% de Leandro Grass (PT) — candidato apoiado pelo presidente.
A relação entre Planalto e Buriti tende a recolocar no centro do debate temas sensíveis para a capital: repasses federais para saúde e mobilidade, o financiamento do transporte público do Entorno e a recomposição do funcionalismo. A expectativa nos bastidores é de convivência pragmática, com menos espaço para alinhamento automático do que houve nos últimos anos.
Sobre Lula
Nome completo: Luiz Inácio Lula da Silva – Partido: Partido dos Trabalhadores (PT) Idade: 80 anos (completa 81 em 27 de outubro) Naturalidade: Caetés (PE) Profissão: Torneiro mecânico e sindicalista.
Trajetória
- 1975 — eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo
- 1980 — participa da fundação do PT
- 1986 — eleito deputado federal constituinte
- 1989 — primeira candidatura à Presidência, derrotado por Fernando Collor
- 1994 e 1998 — derrotado por Fernando Henrique Cardoso
- 2002 — eleito presidente da República
- 2006 — reeleito
- 2011 — deixa o cargo com 87% de aprovação
- 2018 — preso e impedido de disputar a eleição
- 2022 — eleito para o terceiro mandato, derrotando Jair Bolsonaro
- 2026 — reeleito para o quarto mandato
Da redação do Gama Cidadão – 25 de outubro de 2026
