Depois de protesto realizado na Secretaria de Cultura por artistas da cidade, produziu-se um manifesto idealizado pelo artista José Garcia Caianno (Dedé)

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(Foto: Da redação do Clica Brasília Camila Maxi)

Dentro da cobertura que o Gama Cidadão realizou do protesto feito por artistas do Distrito Federal, em prol da cultura local, recebemos do Poeta José Garcia Caianno (Dedé) o seguinte manifesto o qual publicamos abaixo na íntegra.

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(Foto: T-Bone e José Garcia Caianno (Dedé) os dois no diário dos aflitos um filosofo e um poeta)

  


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Manifesto Banca de Poetas

Não gosto do sr. Luiz amorim, gosto das coisas que ele faz.

Iniciamos o nosso Manifesto propondo ao governo ações conjuntas entre os seguintes ógãos do governo: Secult, que tem a função de conceituar; Secr. de Educação; Secr. do Desenvolvimento Social; Secr. do Meio Ambiente; Secr. da Segurança Pública; Secr. de Saúde. De todas as outras, esperamos solidariedade, já que são filhas do mesmo pai, o Palácio do Buriti. – Na esteira dessa administração, há uma tal de compensação por danos ambientais. Deus me livre dessa grana na minha mão, só para investir em programas de educação, em parques!!

Adeus violência, baibai!!

Sou Banca de Poetas, sou grito do livro.

O Manifesto Grito do Livro pelo T-bone, enquanto promotor de politicas culturais públicas, recebe o apoio da Banca de Poetas por se tratar de um instituto que coloca arte na rua.
Não é com o dedo em riste, mas no sentido de aprimorar relações, que nos propomos a participar do debate.

Conheci o cavalheiro das paradas de ônibus e da arte nas ruas pelo viés da literatura, logo no início de seu empreendimento. Rapidamente percebi ser ele um turrão, um cabeça dura – daqueles que cismam em imprimir sua digital em tudo o que fazem; assim como todo e qualquer artista, querendo aprimorar sua arte.

Contraí com este senhor dívida impagável. Trata-se de que em 2010, por ocasião do lançamento do meu livreto Todo mundo é muito bom, mas meu casaco sumiu, mazelas de produção cuidaram para que a obra ficasse pronta, do ponto de vista do texto, mas não do formato material. No dia do lançamento, permaneci até o último instante com as máquinas ligadas, por pura boa vontade do Zé Carlos, dono da gráfica, no aguardo de soluções. Que não viriam, por questões que não merecem ser citadas, melindres da editoração. Um grande número de artistas como convidados especiais, tendo como mestre de cerimônia o poeta, cronista e jornalista Paulo José, que disse sim logo ao ser convidado. Entre eles, o Maestro Jorge Antunes, o Maestro Rênio Quintas e Célia porto, inclusive de Manaus o prefaciador da obra, o grande Paulo Bonequeiro de Tarso. A lista do elenco presente não caberia nesta página. Mas todos sabem da gratidão que tenho para com cada um desses malungos. A presença maciça do público querendo ver a obra, e o tempo passando… Mantive-me escondido na parte de trás, junto a grandes mantas de carne. Sim, pois ali não é um açougue? – Tudo transcorreu na mais livre e espontanea pressão. Ao final, voltei para casa, carregando nos ombros a certeza do dever não cumprido.

Nem é preciso dizer que passei a noite em claro. Logo pela manhã, me organizava para fazer os contatos necessários, e levar o primeiro puxão de orelha – daquele que abrira para mim as portas de sua casa, uma das mais requisitadas casas para ações artísticas, em todo o país, e eu acabara de lhe brindar com tamanha massada. Até hoje me emociono ao lembrar do momento em que estavam todos perguntando: “Cadê o livro, camarada, quero ver pelo menos a capa…”

” Um desses era ninguém mais ninguém menos que o Ivan Presença, o mais importante livreiro da cidade. O telefone toca. Do outro lado da linha, o açougueiro, pensei logo que iria ser desossado.”

“– Dedé, é o Luiz.”

“– Sim, meu caro, eu ia mesmo te ligar.”

Minhas pernas tremiam. É agora que ele me empurra para o abismo. Antes que  eu pudesse dizer qualquer palavra, ele dispara sua metralhadora.

“Cara – diz o Luiz –, agora você é meu guru. Vamos correr atrás do livro.”

A obra foi arremessada pela internet, ficando outra parte para quando Deus quisesse. Isso para quem acredita nessa posibilidade. Claro, fui e ainda sou criticado até hoje pelo ocorrido. Enquanto isso, o sujeito envolvido em tamanha façanha, se quisesse aparecer na mídia, por causa do frêmito causado pelo lançamento que não pôde acontecer em sua complexidade, seria momento favorável de me empurrar ladeira abaixo. Devo-lhe, não nego, meu débito é impagável.

Logo vocês devem estar pensando que minha vida com este senhor é um mar de rosas. Enganam-se, pobres mortais!

Vivemos às turras um com o outro, ele sempre me enchendo o saco, e eu lhe devolvendo com a mesma pataca. O primeiro questionamento que lhe fiz diz respeito à questão dos livreiros, que como seus convidados não eram remunerados. Perturbei-lhe muito o juízo, e de tanto ouvir minhas insinuações acabou por compreender que eu estava com a razão.

“– Ora, se são eles importantes na programação, por que não pagá-los?

Sabe quanto custa o deslocamento desses trabalhadores, com toda a sua tralha?

Além do mais, este dinheiro é do povo, dovolva-o à fonte! Hoje em dia, todos são pagos, nada mais justo, embora seja no momento insuficiente a quantia. Uma vez que são estruturais para a realização de sua empreitada.”

Logo em seguida, iniciei outra via crucis, em nome dos poetas mal remunerados. Dizia eu ao cavalheiro das paradas…

“– Que papo é esse de pagar aos poetas cachês menores que os dos músicos, se são eles o mote da cena?”

E mais quebra-paus, e mais uma vez nossa amizade consolidada. Ainda não chegamos a bom termo, ele alega não ter recursos, e agora estou vendo por onde trilha esse camarada. Nem o governo local o reconhece. Muitas vezes, ele já perdeu a paciência comigo, mas nunca, jamais fugiu ao debate. Enquanto todos o aplaudem, eu o critico. Digo, em tom de galhofa:

“– Confie em mim, eu sou o seu salvador, venho salvá-lo da unanimidade.”

Para mim esse é o perfil de um gestor público, que dá a cara a tapa para pôr nas ruas políticas públicas e obras de arte. Lá se vai mais de uma década fazendo parte do calendário da cidade. Diferente do que ocorre na seCult, que não tem um projeto sequer no calendário; ou estou enganado?!

Estamos infelizes, sim, senhor, a classe artística está decepcionada. Queremos ser ouvidos e poder opinar, afinal somos artistas. Fomos convocados para apoiar esse pleito e comparecemos em massa. Leiam o meu livro, ele versa sobre uma tragédia pela qual Brasília passava, e até hoje não conseguiu se desvencilhar, pois está nos noticiários que todo dia tem um roubo, e por incrível que pareça ele recai sobre as nossas costas. Peraí, o que tenho com roubo no Itapoã, ou no Sudoeste?

O que é que tem a ver Luiz com tudo isso para amargar essa abominável quarentena, agora o cara rouba e os artistas são quem paga o pato?

Sou um homem de 60 anos, tenho filhos e um nome a zelar. Agora ser tratado como um “lalau”?

Isso não, jamais. Assim terei que invocar o mestre Maiakovisk, ou permitir que roubem nossa rosa. Esse negócio está me cheirando mal. No meu caso, enquanto promotor do livro e da leitura, não é facil acreditar, uma vez que Brasília vem trazer para si o título de “Capital do Livro e da Leitura”! Sim, senhor, por que não posso ser contratado?

Sei muito bem, a culpa é do formato: o Fac não aceita artistas com capacidade de inovar. A Banca de Poetas é conceituada segundo o pensamento aristótélico do teatro puro, ou seja, “ação dramática, ator, texto e público”, ficando o quinto elemento, o conflito, por conta da intenção do ator – disse-me o professor de História da Arte Nivaldo Ramos de Freitas, e isso causa desconforto. Porém nossa proposta não se encerra por aí.

A vocação da Banca de Poetas é permanecer em cena por jornadas prolongadas, de entre 8 e 12 horas, período em que diversas linguagens artísticas se apresentam. “O que é mais dramático para o autor do que  a página em branco?” Diria Mario Quintana.

Uma formiguinha
atravessa em diagonal
a página ainda em branco…
Mas ele naquela noite
não escreveu nada…
Pra quê?
Se por ali
havia passado
o frêmito e o mistério
da vida.

Ou ainda Paulo Leminsk, com seu  poema breve…

Viajar me deixa
com a alma rasa
Perto de tudo
Lonje de casa.

Aí inovamos, embasados no pensamento de Augusto Boal de que todas as linguagens são insubstituíveis, mas que se completam no final. É isso que a Banca de Poetas faz, ou melhor, tenta fazer, faltando apenas o sinal verde do pessoal da Secretaria. Mas não seria para isso que, ao ser convidado para apoiar esse pleito, compareci, fui às ruas, abracei candidatos, me expus. Caso o oponente ganhasse, já pensaram um daqueles mencionados em meu livro administrando a seCult? Pois é exatamente do mesmo jeito que estou sendo tratado. E mais, fica aqui meu voto garantido, não vou mudar de lado. Não sou candidato, não compro, nem vendo votos, cultura não é comércio. Meu negócio é arte. Só quero ser ouvido e poder tornar realmente Brasília Capital da Esperança do Livro e da Leitura. O maior acanhamento vem da razão alegada para que o meu projeto fosse inabilitado: contrapartida. Pense! Por sugerir que fizesse parte do processo justamente a “inclusão digital”. Aí… difícil manter a paciência! Qual o projeto, hoje em dia, que se sustenta sem a inclusão digital, além do mais ao ser um trabalho que lida com a leitura e a escrita? Conversei com representante de importante fundação, que patrocina grandes eventos. Vejam, digo eventos, eu trabalho com formação. Sabem o que ele me disse? “– Nós só estamos colocando dinheiro aqui porque ele faz a inclusão digital.” 

Para quem não sabe, no âmbito das licitações, tem um artigo que trata dos específicos, e como tal é que quero ser tratado. Dispenso conclaves, não compro nem vendo votos. Cultura não é comércio, meu negócio é arte. Sou  específico, de genéricos estou cheio.

Não me venham com estória de colocar artistas contra artistas, todos são legítimos. O pior, vocês não sabem quem vem pela frente, mas eu digo. Pela primeira vez, tive a oportunidade de ter uma produtora que se interessasse pelo meu trabalho. Ali trabalha um consultor invejável, qualquer um no contexto gostaria de tê-lo conceituando seu serviço.

Eu estava na produção do Ato Público

“Itapuã pela Arte”, por isso me senti confortável, deixando por conta dele a formatação do projeto, do jeito que tem que ser. Foi ele que sugeriu a inclusão digital, embora a criação dessa página tenha sido ao longo do tempo o meu suplício. Com a inabilitação do projeto, sugeri ao produtor que entrasse com o tal inaceitável recurso. Ele, o meu produtor, achou melhor aprimorar a proposta para o próximo edital, eliminando arestas. Eu disse que iria falar com o sujeito que emitiu o parecer inabilitativo. O meu produtor então me disse:

“– Se você fosse reclamar, poderia levar minhas coisas, pois não me interessa trabalhar com gente assim, desse tipo. Preciso cuidar da minha empresa. Você  é muito rebelde – ele disse –, e dá muito trabalho.”

“– Oba, até que enfim um adjetivo justo para um artista!”

“– Você me dá muito trabalho”, ele disse. Justamente pelo fato de não compactuar com isso?

Pergunto. Calei-me por dois dias, e graças a Deus acordei desse pesadelo. Fui ao seu encontro e disse-lhe:

“– Sou demissionário, coitado do meu ex-produtor, mas o pior é que “ex” é o tipo de coisa de que você não se livra. É o único estágio da relação humana que é para sempre. Coitado, não deve ter lido Maiakovisk. Mas me disse mais ele:

“– É que lá dentro do Fac é assim. Quando alguém comete o deslize e é questionado todos saem em sua defesa, acumulando ‘defensivos’.”

É isso. An… Ran!…

Entendi, então é esse corporavitismo…

E o movimento cultural aqui é só isso?…

– Mas é claro que em toda regra há exceção, há também pessoas notáveis. Mas assim tô fora! As coisas afinal não estão transparentes, claras, por ali.

– Agora começo a propor! Caso o orçamento não seja suficiente, tenho uma dica. Contrate um bom executivo para a casa, afinal, ali do outro lado da rua, pra economisar gasolina, dá pra convidar o presidente do BRB, que pode quem sabe colocar a sua logomarca junto com a da Secretaria, do GDF.

“– Sr. BRB, tenho uma proposta simples, pois somos filhos do mesmo pai, o Palácio do Buriti. Apresento o inventário da Secretaria, nosso know-how, a folha de pagamento, e o currículo de todos os artistas.Assim vamos colocar arte em todo o quadrilátero. E vamos reduzir a violência em números definitivos, ao melhorar a imagem da casa, enquanto o senhor vai dobrar a sua clientela. Já que entramos com a base para que brilhe, é justo que entre com o dobro do capital, certo?”

Caso o gerente não queira, deverá ser o caso de chamar um capitalista. E voltando nós aqui, quero que aqueles que pensam que artista não deve viver de arte que repensem a sua posição, pois esse é o seu ofício. E ainda querem que eu fique calado. Impossível. A Banca de Poetas se propõe o teatro literário.

Para isso, são necessárias duas tendas de 12 por 12m, mais ou menos. Para o cenário, falta o dinheiro para comprar. Metodologia:

O primeiro drama que o homem que está dando os primeiros passos enfrenta…

É uma página em branco, para ele giz de cera para se deleitar. A garatuja é a antessala do letramento. Depois, as nossas vogais, cada uma tem a sua própria cara. Vejam as fotos da Banca de Poetas, repletas de homenzinhos tentando desbravar essa sombra que a todo autor atormenta. Querem mais?

Perguntem, leiam o fôlder da Banca de Poetas, impresso aí mesmo na gráfica, e tem até a logo do pai de vocês. Querem saber mais? Perguntem a Aristóteles, Augusto Boal, professora Lúcia Pulino, professora Alexandra Rodrigues, a todos aqueles que criaram a Vivendo e Aprendendo, Associação de Pais e Mestres, onde a criança é levada a sério. Eu não tenho nada a ver com isso. Quem me ensinou foi o professor Nivaldo Ramos de Freitas. Ou vocês acham que nasci sabendo!?

Se eu fosse morrer de mídia, estaria vivendo e aprendendo!!

Este texto é dedicado à Associação Pró-Educação Vivendo e Aprendendo, onde a criança é levada a sério, à população de moradores de rua e aos garis.

Fonte: Banca de Poetas

Leia mais… Artistas protestam contra falta de apoio governamental a projeto cultural

Manifesto Banca de Poetas

Não gosto do sr. Luiz amorim, gosto das coisas que ele faz.
Iniciamos o nosso Manifesto propondo ao governo ações conjuntas entre os seguintes ógãos do governo: Secult, que tem a função de conceituar; Secr. de Educação; Secr. do Desenvolvimento Social; Secr. do Meio Ambiente; Secr. da Segurança Pública; Secr. de Saúde. De todas as outras, esperamos solidariedade, já que são filhas do mesmo pai, o Palácio do Buriti. – Na esteira dessa administração, há uma tal de compensação por danos ambientais. Deus me livre dessa grana na minha mão, só para investir em programas de educação, em parques!! Adeus violência, baibai!!

Sou Banca de Poetas, sou grito do livro.

O Manifesto Grito do Livro pelo T-bone, enquanto promotor de politicas culturais públicas, recebe o apoio da Banca de Poetas por se tratar de um instituto que coloca arte na rua.
Não é com o dedo em riste, mas no sentido de aprimorar relações, que nos propomos a participar do debate.

Conheci o cavalheiro das paradas de ônibus e da arte nas ruas pelo viés da literatura, logo no início de seu empreendimento. Rapidamente percebi ser ele um turrão, um cabeça dura – daqueles que cismam em imprimir sua digital em tudo o que fazem; assim como todo e qualquer artista, querendo aprimorar sua arte.

Contraí com este senhor dívida impagável. Trata-se de que em 2010, por ocasião do lançamento do meu livreto Todo mundo é muito bom, mas meu casaco sumiu, mazelas de produção cuidaram para que a obra ficasse pronta, do ponto de vista do texto, mas não do formato material. No dia do lançamento, permaneci até o último instante com as máquinas ligadas, por pura boa vontade do Zé Carlos, dono da gráfica, no aguardo de soluções. Que não viriam, por questões que não merecem ser citadas, melindres da editoração. Um grande número de artistas como convidados especiais, tendo como mestre de cerimônia o poeta, cronista e jornalista Paulo José, que disse sim logo ao ser convidado. Entre eles, o Maestro Jorge Antunes, o Maestro Rênio Quintas e Célia porto, inclusive de Manaus o prefaciador da obra, o grande Paulo Bonequeiro de Tarso. A lista do elenco presente não caberia nesta página. Mas todos sabem da gratidão que tenho para com cada um desses malungos. A presença maciça do público querendo ver a obra, e o tempo passando… Mantive-me escondido na parte de trás, junto a grandes mantas de carne. Sim, pois ali não é um açougue? – Tudo transcorreu na mais livre e espontanea pressão. Ao final, voltei para casa, carregando nos ombros a certeza do dever não cumprido.

Nem é preciso dizer que passei a noite em claro. Logo pela manhã, me organizava para fazer os contatos necessários, e levar o primeiro puxão de orelha – daquele que abrira para mim as portas de sua casa, uma das mais requisitadas casas para ações artísticas, em todo o país, e eu acabara de lhe brindar com tamanha massada. Até hoje me emociono ao lembrar do momento em que estavam todos perguntando: “Cadê o livro, camarada, quero ver pelo menos a capa…”

” Um desses era ninguém mais ninguém menos que o Ivan Presença, o mais importante livreiro da cidade. O telefone toca. Do outro lado da linha, o açougueiro, pensei logo que iria ser desossado.”

“– Dedé, é o Luiz.”

“– Sim, meu caro, eu ia mesmo te ligar.”

Minhas pernas tremiam. É agora que ele me empurra para o abismo. Antes que  eu pudesse dizer qualquer palavra, ele dispara sua metralhadora.

“Cara – diz o Luiz –, agora você é meu guru. Vamos correr atrás do livro.”

A obra foi arremessada pela internet, ficando outra parte para quando Deus quisesse. Isso para quem acredita nessa posibilidade. Claro, fui e ainda sou criticado até hoje pelo ocorrido. Enquanto isso, o sujeito envolvido em tamanha façanha, se quisesse aparecer na mídia, por causa do frêmito causado pelo lançamento que não pôde acontecer em sua complexidade, seria momento favorável de me empurrar ladeira abaixo. Devo-lhe, não nego, meu débito é impagável.

Logo vocês devem estar pensando que minha vida com este senhor é um mar de rosas. Enganam-se, pobres mortais!

Vivemos às turras um com o outro, ele sempre me enchendo o saco, e eu lhe devolvendo com a mesma pataca. O primeiro questionamento que lhe fiz diz respeito à questão dos livreiros, que como seus convidados não eram remunerados. Perturbei-lhe muito o juízo, e de tanto ouvir minhas insinuações acabou por compreender que eu estava com a razão.

“– Ora, se são eles importantes na programação, por que não pagá-los?

Sabe quanto custa o deslocamento desses trabalhadores, com toda a sua tralha?

Além do mais, este dinheiro é do povo, dovolva-o à fonte! Hoje em dia, todos são pagos, nada mais justo, embora seja no momento insuficiente a quantia. Uma vez que são estruturais para a realização de sua empreitada.”

Logo em seguida, iniciei outra via crucis, em nome dos poetas mal remunerados. Dizia eu ao cavalheiro das paradas…

“– Que papo é esse de pagar aos poetas cachês menores que os dos músicos, se são eles o mote da cena?”

E mais quebra-paus, e mais uma vez nossa amizade consolidada. Ainda não chegamos a bom termo, ele alega não ter recursos, e agora estou vendo por onde trilha esse camarada. Nem o governo local o reconhece. Muitas vezes, ele já perdeu a paciência comigo, mas nunca, jamais fugiu ao debate. Enquanto todos o aplaudem, eu o critico. Digo, em tom de galhofa:

“– Confie em mim, eu sou o seu salvador, venho salvá-lo da unanimidade.”

Para mim esse é o perfil de um gestor público, que dá a cara a tapa para pôr nas ruas políticas públicas e obras de arte. Lá se vai mais de uma década fazendo parte do calendário da cidade. Diferente do que ocorre na seCult, que não tem um projeto sequer no calendário; ou estou enganado?!

Estamos infelizes, sim, senhor, a classe artística está decepcionada. Queremos ser ouvidos e poder opinar, afinal somos artistas. Fomos convocados para apoiar esse pleito e comparecemos em massa. Leiam o meu livro, ele versa sobre uma tragédia pela qual Brasília passava, e até hoje não conseguiu se desvencilhar, pois está nos noticiários que todo dia tem um roubo, e por incrível que pareça ele recai sobre as nossas costas. Peraí, o que tenho com roubo no Itapoã, ou no Sudoeste?

O que é que tem a ver Luiz com tudo isso para amargar essa abominável quarentena, agora o cara rouba e os artistas são quem paga o pato?

Sou um homem de 60 anos, tenho filhos e um nome a zelar. Agora ser tratado como um “lalau”?

Isso não, jamais. Assim terei que invocar o mestre Maiakovisk, ou permitir que roubem nossa rosa. Esse negócio está me cheirando mal. No meu caso, enquanto promotor do livro e da leitura, não é facil acreditar, uma vez que Brasília vem trazer para si o título de “Capital do Livro e da Leitura”! Sim, senhor, por que não posso ser contratado?

Sei muito bem, a culpa é do formato: o Fac não aceita artistas com capacidade de inovar. A Banca de Poetas é conceituada segundo o pensamento aristótélico do teatro puro, ou seja, “ação dramática, ator, texto e público”, ficando o quinto elemento, o conflito, por conta da intenção do ator – disse-me o professor de História da Arte Nivaldo Ramos de Freitas, e isso causa desconforto. Porém nossa proposta não se encerra por aí.

A vocação da Banca de Poetas é permanecer em cena por jornadas prolongadas, de entre 8 e 12 horas, período em que diversas linguagens artísticas se apresentam. “O que é mais dramático para o autor do que  a página em branco?” Diria Mario Quintana.

Uma formiguinha
atravessa em diagonal
a página ainda em branco…
Mas ele naquela noite
não escreveu nada…
Pra quê?
Se por ali
havia passado
o frêmito e o mistério
da vida.

Ou ainda Paulo Leminsk, com seu  poema breve…

Viajar me deixa
com a alma rasa
Perto de tudo
Lonje de casa.

Aí inovamos, embasados no pensamento de Augusto Boal de que todas as linguagens são insubstituíveis, mas que se completam no final. É isso que a Banca de Poetas faz, ou melhor, tenta fazer, faltando apenas o sinal verde do pessoal da Secretaria. Mas não seria para isso que, ao ser convidado para apoiar esse pleito, compareci, fui às ruas, abracei candidatos, me expus. Caso o oponente ganhasse, já pensaram um daqueles mencionados em meu livro administrando a seCult? Pois é exatamente do mesmo jeito que estou sendo tratado. E mais, fica aqui meu voto garantido, não vou mudar de lado. Não sou candidato, não compro, nem vendo votos, cultura não é comércio. Meu negócio é arte. Só quero ser ouvido e poder tornar realmente Brasília Capital da Esperança do Livro e da Leitura. O maior acanhamento vem da razão alegada para que o meu projeto fosse inabilitado: contrapartida. Pense! Por sugerir que fizesse parte do processo justamente a “inclusão digital”. Aí… difícil manter a paciência! Qual o projeto, hoje em dia, que se sustenta sem a inclusão digital, além do mais ao ser um trabalho que lida com a leitura e a escrita? Conversei com representante de importante fundação, que patrocina grandes eventos. Vejam, digo eventos, eu trabalho com formação. Sabem o que ele me disse? “– Nós só estamos colocando dinheiro aqui porque ele faz a inclusão digital.” 

Para quem não sabe, no âmbito das licitações, tem um artigo que trata dos específicos, e como tal é que quero ser tratado. Dispenso conclaves, não compro nem vendo votos. Cultura não é comércio, meu negócio é arte. Sou  específico, de genéricos estou cheio.

Não me venham com estória de colocar artistas contra artistas, todos são legítimos. O pior, vocês não sabem quem vem pela frente, mas eu digo. Pela primeira vez, tive a oportunidade de ter uma produtora que se interessasse pelo meu trabalho. Ali trabalha um consultor invejável, qualquer um no contexto gostaria de tê-lo conceituando seu serviço.

Eu estava na produção do Ato Público

“Itapuã pela Arte”, por isso me senti confortável, deixando por conta dele a formatação do projeto, do jeito que tem que ser. Foi ele que sugeriu a inclusão digital, embora a criação dessa página tenha sido ao longo do tempo o meu suplício. Com a inabilitação do projeto, sugeri ao produtor que entrasse com o tal inaceitável recurso. Ele, o meu produtor, achou melhor aprimorar a proposta para o próximo edital, eliminando arestas. Eu disse que iria falar com o sujeito que emitiu o parecer inabilitativo. O meu produtor então me disse:

“– Se você fosse reclamar, poderia levar minhas coisas, pois não me interessa trabalhar com gente assim, desse tipo. Preciso cuidar da minha empresa. Você  é muito rebelde – ele disse –, e dá muito trabalho.”

“– Oba, até que enfim um adjetivo justo para um artista!”

“– Você me dá muito trabalho”, ele disse. Justamente pelo fato de não compactuar com isso?

Pergunto. Calei-me por dois dias, e graças a Deus acordei desse pesadelo. Fui ao seu encontro e disse-lhe:

“– Sou demissionário, coitado do meu ex-produtor, mas o pior é que “ex” é o tipo de coisa de que você não se livra. É o único estágio da relação humana que é para sempre. Coitado, não deve ter lido Maiakovisk. Mas me disse mais ele:

“– É que lá dentro do Fac é assim. Quando alguém comete o deslize e é questionado todos saem em sua defesa, acumulando ‘defensivos’.”

É isso. An… Ran!…

Entendi, então é esse corporavitismo…

E o movimento cultural aqui é só isso?…

– Mas é claro que em toda regra há exceção, há também pessoas notáveis. Mas assim tô fora! As coisas afinal não estão transparentes, claras, por ali.

– Agora começo a propor! Caso o orçamento não seja suficiente, tenho uma dica. Contrate um bom executivo para a casa, afinal, ali do outro lado da rua, pra economisar gasolina, dá pra convidar o presidente do BRB, que pode quem sabe colocar a sua logomarca junto com a da Secretaria, do GDF.

“– Sr. BRB, tenho uma proposta simples, pois somos filhos do mesmo pai, o Palácio do Buriti. Apresento o inventário da Secretaria, nosso know-how, a folha de pagamento, e o currículo de todos os artistas.Assim vamos colocar arte em todo o quadrilátero. E vamos reduzir a violência em números definitivos, ao melhorar a imagem da casa, enquanto o senhor vai dobrar a sua clientela. Já que entramos com a base para que brilhe, é justo que entre com o dobro do capital, certo?”

Caso o gerente não queira, deverá ser o caso de chamar um capitalista. E voltando nós aqui, quero que aqueles que pensam que artista não deve viver de arte que repensem a sua posição, pois esse é o seu ofício. E ainda querem que eu fique calado. Impossível. ABanca de Poetas se propõe o teatro literário.

Para isso, são necessárias duas tendas de 12 por 12m, mais ou menos. Para o cenário, falta o dinheiro para comprar. Metodologia:

O primeiro drama que o homem que está dando os primeiros passos enfrenta…

É uma página em branco, para ele giz de cera para se deleitar. A garatuja é a antessala do letramento. Depois, as nossas vogais, cada uma tem a sua própria cara. Vejam as fotos da Banca de Poetas, repletas de homenzinhos tentando desbravar essa sombra que a todo autor atormenta. Querem mais?

Perguntem, leiam o fôlder da Banca de Poetas, impresso aí mesmo na gráfica, e tem até a logo do pai de vocês. Querem saber mais? Perguntem a Aristóteles, Augusto Boal, professora Lúcia Pulino, professora Alexandra Rodrigues, a todos aqueles que criaram a Vivendo e Aprendendo, Associação de Pais e Mestres, onde a criança é levada a sério. Eu não tenho nada a ver com isso. Quem me ensinou foi o professor Nivaldo Ramos de Freitas. Ou vocês acham que nasci sabendo!?

Se eu fosse morrer de mídia, estaria vivendo e aprendendo!!

Este texto é dedicado à Associação Pró-Educação Vivendo e Aprendendo, onde a criança é levada a sério, à população de moradores de rua e aos garis.

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