Só 29% das pessoas com deficiência trabalham, e o analfabetismo entre jovens é 12 vezes maior, mostra o IBGE

Segunda edição do estudo sobre desigualdades, divulgada nesta sexta com dados do Censo 2022, conta 14,4 milhões de brasileiros com deficiência e renda média R$ 837 menor por mês

O IBGE divulgou nesta sexta-feira (18) a segunda edição do estudo Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil. A diferença em relação à primeira, de 2022, está na régua: aquela trabalhava com a amostra da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019; esta usa o Censo Demográfico de 2022, que passou de porta em porta. Eram 14,407 milhões de pessoas com deficiência no país, ou 7,3% da população de 2 anos ou mais.

O retrato que sai daí é de distância em quase toda dimensão medida — e a maior delas está no trabalho.

Menos da metade da chance de estar empregado

O nível de ocupação entre pessoas com deficiência em idade de trabalhar era de 29%, contra 55,8% entre as demais: 26,8 pontos percentuais de diferença. Em números absolutos, de 13,71 milhões de pessoas com deficiência em idade de trabalhar, 3,97 milhões tinham ocupação.

A distância varia conforme o tipo de deficiência. Entre quem tem limitações nas funções mentais, o nível de ocupação cai a 12,9%; entre quem tem dificuldade para enxergar, sobe a 35,9%.

O recorte por sexo acumula as duas desvantagens: 24,4% das mulheres com deficiência estavam ocupadas, contra 35,4% dos homens com deficiência e 47% das mulheres sem deficiência.

R$ 837 a menos por mês

O rendimento médio mensal das pessoas com deficiência era de R$ 2.053, cerca de 70% dos R$ 2.890 recebidos por quem não tem deficiência — uma diferença de R$ 837.

O grupo de atividades que paga melhor a esse trabalhador é o da administração pública, educação, saúde e serviços sociais, com R$ 3.223. Mesmo ali, o valor equivale a 78% dos R$ 4.146 pagos a quem não tem deficiência.

Há um efeito de composição que ajuda a entender a renda dos domicílios: nos que têm ao menos um morador com deficiência, o trabalho responde por 55,7% da renda total, contra 78,4% nos demais. O restante vem sobretudo de aposentadorias, pensões e benefícios. A contribuição previdenciária entre os ocupados também é menor: 57,9%, contra 67,7%.

Analfabetismo de 12,2% entre jovens

Na faixa de 15 a 29 anos, a taxa de analfabetismo era de 12,2% entre pessoas com deficiência e de 1% entre as demais — doze vezes maior. Por tipo, chega a 40,4% entre quem tem dificuldades mentais, 34% entre quem tem deficiências múltiplas e 3,5% entre quem tem dificuldade para enxergar.

A frequência escolar também é menor, e a diferença começa cedo: 92,6% das crianças de 6 a 14 anos com deficiência estavam na escola, contra 98,4% das demais. Entre 15 e 17 anos, 79,5% contra 85,4%. Quando a deficiência é profunda, os índices caem a 82,3% e 65,6%.

O ensino superior é o ponto de melhora mais nítido do estudo. As matrículas de estudantes com deficiência passaram de 33.377, em 2014, para 95.572, em 2024 — quase o triplo. O presencial praticamente dobrou (de 26.637 para 50.609), mas o salto veio do ensino a distância, que multiplicou por mais de seis, de 6.740 para 44.963. A participação no total de matriculados subiu de 0,43% para 0,93%: mais que o dobro, ainda assim menos de 1%.

Do lado da infraestrutura, o Censo Escolar de 2024 mostra 57% das escolas com banheiro acessível, 30% com sala de recursos multifuncionais e 26,2% com profissional de apoio. Ao menos um desses recursos existe em 78,5% delas.

Moradia, saneamento e o tempo no ônibus

Nos domicílios com moradores com deficiência, o acesso a esgotamento sanitário era de 59,8%, contra 63,1%; a água potável, 82% contra 83,1%; a coleta de lixo, 90,1% contra 91,1%. Os três serviços juntos alcançavam 56,6% desses domicílios, ante 60,2% dos demais.

As maiores distâncias não estão no saneamento, e sim no que se tem dentro de casa: 78,9% tinham internet, contra 90,2%; 60,4% tinham máquina de lavar, contra 68,9%.

Um indicador anda na direção contrária: o adensamento excessivo — três ou mais pessoas por dormitório — atinge 3% dos domicílios com moradores com deficiência e 4,8% dos demais. O pesquisador Leonardo Queiroz Athias, do IBGE, atribui isso ao perfil etário: “Uma boa parte das pessoas com deficiência é idosa. E as pessoas idosas vivem mais em domicílios unipessoais”.

O deslocamento até o trabalho leva, em média, 37 minutos, contra 33 minutos — 12% mais tempo. Também muda o modo: 24,7% usam ônibus ou BRT (contra 21%), 23,7% vão a pé (contra 17,4%) e 22,8% usam veículo próprio ou táxi, bem abaixo dos 32,8% entre quem não tem deficiência.

A representação política encolheu

Entre as eleições municipais de 2020 e as de 2024, o número de eleitos com deficiência caiu de 578 para 415. Entre vereadores homens, de 459 para 356; entre vereadoras, de 63 para 35. Nas prefeituras, os eleitos caíram de 47 para 23, e as eleitas, de 9 para 1. As candidaturas recuaram de 6.409 para 4.813.

“A gente vê uma piora na representação das pessoas com deficiência, com diminuição de candidaturas e de pessoas eleitas”, disse Athias.

No serviço público federal o movimento é oposto. A proporção de servidores com deficiência passou de 0,6%, em 2019, para 3,1%, em 2025. Nos cargos comissionados de níveis 1 a 12, de 0,5% para 2,8%; nos níveis 13 a 17, os mais altos, de 0,2% para 1,5%. Boa parte desse avanço é recente: entre 2024 e 2025, a proporção de servidores saltou de 1,9% para 3,1%.

O que os municípios oferecem

Com base em dados de 2023, o estudo aponta 490 municípios com normas de acessibilidade em espaços públicos, onde vivem 34,5% das pessoas com deficiência, e 480 com legislação de gratuidade no transporte, cobrindo 46,1% da população.

Políticas de promoção dos direitos existem nos municípios onde vive 83,8% da população, mas os instrumentos que dão musculatura a elas são bem mais raros: fundos municipais específicos alcançam 18,9% e servidores capacitados para o atendimento, 36,5%.

Com informações do IBGE, da Agência Brasil e Recort News.

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