Pioneiro conta como se fixou no DF e criou a família no Gama

Trajetória de sucesso na capital Pioneiro conta como se fixou no DF e criou a família no Gama. Entre as figuras ilustres que conheceu, estão Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro

MATHEUS TEIXEIRA

 (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)  

Era 30 de outubro de 1959. A inauguração da capital se aproximava e as notícias que chegavam diziam respeito a uma cidade em construção, rica em oportunidades e pronta para abrigar brasileiros dos quatro cantos do país em busca de uma vida melhor. O baiano Onésio Nunes tinha 18 anos e morava na roça, no interior do estado, em Barreiras. A vontade do pai era que ele continuasse por lá para cuidar da propriedade da família. Ele não queria. Sonhava com uma vida melhor. Um dia à noite, a contragosto dos parentes, arrumou as malas e fugiu de casa. Seu destino era Brasília, mas a cidade, distante 600km, era mais longe do que parecia. Somente entre sua residência e o ponto em que passaria o pau de arara responsável por trazê-lo até o DF, foram 50km de caminhada. Depois, mais oito dias de viagem na caçamba de um caminhão improvisado, dividindo espaço com pelo menos outras 30 pessoas, até chegar ao Planalto Central.

O desembarque foi na Praça Velha, em Planaltina. “Nem sandália eu tinha. Desci descalço e me deparei com um lamaçal enorme”, lembra. Ali mesmo, um homem já oferecia emprego. De prontidão, foi contratado para ajudar na construção do Ministério da Fazenda. “Ajudei a levantar a Esplanada”, assegura. Depois de 60 dias ininterruptos de trabalho, encontrou um primo, que trazia boas novas. Conseguira um emprego de servente para Onésio, na construção do Bloco 8 — atual F — da 208 Sul. Com a obra concluída, no começo de 1960, convidaram-no para ser porteiro do prédio. Até aquele dia, o jovem nunca tinha nem sequer pisado numa sala de aula. Não sabia ler e escrever. “E lá estava eu, matuto interiorano, agora responsável por receber as primeiras mudanças dos integrantes do alto escalão governo federal que vinham do Rio de Janeiro. Naquele bloco, pude ficar amigo de grandes homens, como Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Gabriel Passos, entre tantos outros”, conta. “Darcy era uma pessoa especialíssima, carismática e atenciosa”, acrescenta o pioneiro.

Quem trabalhava nos blocos, antes e depois de suas construções, morava em um acampamento na quadra ao lado, na 207 Sul. “Nossa residência era um barraco de madeira”, lembra. Ele destaca a precariedade do espaço. “O banho era coletivo. Não tínhamos estrutura para nada.”

Contratado pelo extinto Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado (Ipase), em 1965, foi transferido para a parte burocrática do órgão situado no Setor de Autarquias Sul. Ele deixou a portaria do bloco com seus colegas de profissão e tantos outros moradores devido à ditadura militar. “Dava muito problema. Os militares iam com frequência até o prédio atrás dos políticos que lá residiam”, recorda. Ele fala do medo diário que viviam. “A repressão era grande.”

“Gamadão”

Em 1966, Onésio voltou para o estado natal. Apesar da saudade dos familiares, foi em busca do grande amor. Doralina morava na Bahia e veio com o marido para o DF. Até aquele ano, Onésio era morador da Vila IAPI, no Núcleo Bandeirante. Mas resolveu tentar a vida ao lado da esposa em uma nova região, que conhecera três anos antes. “Em 1963, a filha do deputado pernambucano Milvernes Lima ia fazer uma doação a uma igreja do Gama, mas não queria ir sozinha. Fui com ela e fiquei gamadão pela cidade. Literalmente”, conta.

Em meados de 1960, a vida não era fácil naquela cidade tomada pela lama. “Era tudo deserto. Mal tinha eletricidade e água encanada”, ressalta. As dificuldades vividas não foram poucas. O barraco em que morava nem porta tinha. Onésio, contudo, tem saudade daquele tempo. “Não havia essa violência que há hoje. Prova disso é que não conseguia nem fechar minha casa”, relata. Ele conta que não imaginava que o local a que chegou mais de 50 anos atrás ficaria como é hoje, tanto o Gama quanto Brasília. “Tudo mudou. Nem o mais otimista apostaria que o DF seria a potência econômica que é hoje”.

Enquanto trabalhava no Plano Piloto, a mulher decidiu investir no Gama. Em 1981, abriu uma mercearia. O sucesso foi instantâneo. Por 27 anos, Doralina tomou conta daquela venda que se tornara conhecida na cidade. Há seis anos, entretanto, arrendaram o negócio. “Em 2008, meu filho sofreu um acidente de carro e ficou paraplégico. Sofremos muito com aquilo e acabamos ficando meio desgostoso com a vida. Estava ruim para atender a clientela, por isso decidimos arrendá-la”, explica. Após 48 anos de casada, Doralina ainda parece aquela garota apaixonada que Onésio buscou na Bahia. “Não é à toa que estamos juntos até hoje. Amo muito esse homem. Ele é lindo”, descreve a esposa.

O pioneiro da capital se aposentou em 1992, pelo mesmo instituto em que trabalhou a vida inteira. Hoje com 73 anos, agradede ao Planalto Central a oportunidade que teve. “Fui o primeiro da família a vir para cá. Com o tempo, convenci meus cinco irmãos, que também ganharam a vida por aqui”, diz. Os cinco filhos de Onésio foram criados no Gama e, atualmente, todos são servidores públicos. “Além de serem bem-sucedidos na vida, me deram cinco lindos netos”, exalta.

“Darcy (Ribeiro) era uma pessoa especialíssima, carismática e atenciosa”
Onésio Nunes

Quem é
» Onésio Nunes, 73 anos
» Chegou a Brasília em 1959
» Casado
» Tem cinco filhos e cinco netos

Correio Braziliense

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