Governos militares evitavam corrupção pelas raízes

Vicente Vecci

A operação Lava Jato trouxe à tona o antro de corrupção alojada na administração pública do país, vinculada a um setor da iniciativa privada com  determinados componentes da classe política. O foco principal são nossas estatais com poder de receitas elevadas de onde amealharam milhões de dólares e reais, provocando  sangria nos cofres públicos.

Nunca em nossa história  acontecera fato semelhante pelo volume de desvio desses  recursos, superando outro denominado  “ Mensalão” que teve como leito o Legislativo sob mando e comando de certos membros do Executivo, uma cooptação para perpetuação  no poder do partido então dominante. Nesse  dois fatos as unhas da corrupção estavam bastante longas e afiadas, conforme se comprovou e está sendo comprovado pelo Ministério Público e à Justiça.

Tudo leva a crer essa corrupção generalizada teve início com a ascensão da chamada Nova República na redemocratização do país, vivenciada  profissionalmente por nós na época, no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto.

Cobrimos a eleição indireta que elegeu Tancredo Neves presidente da República e tivemos a felicidade de entrevistá-lo em sua residência em Brasília uma semana antes de seu convalescimento e internamento nos Hospital de Base. Foi para emissoras de TV conveniadas com a nossa empresa jornalística OBN, tendo como pauta uma futura visita que faria como presidente da República à feira comercial e internacional de Tsucubo no Japão, onde gravamos sua mensagem  já falando como titular do cargo, saudando aos participantes do evento, prevista para ser veiculada na abertura.

Tancredo fizera um bom governo em Minas e o conhecíamos bem politicamente. Apoiamos sua candidatura nas eleições de 1982 no Noroeste de Minas Gerais, onde circulava  por mala direta o Jornal da Região-Geoeconomica do DF, editado por nós nesse período.

Experiente e de comportamento ilibado, primando pela ética, Tancredo, se empossado, com certeza o Brasil seria outro. Mas não aconteceu e assumiu seu lugar um político conhecido por construir um feudo em seu Estado com recursos públicos, conforme se divulgara. Daí então teve início a jornada da corrupção, infiltrada em governos que vieram posteriormente tanto nos estados como da União. Políticos que estavam no ostracismo, regressaram na política e se locupletaram com dinheiro público, principalmente em governos estaduais. Basta ver seus patrimônios antes e depois.

Deixando à questão ideológica à parte, nos governos militares esse mal praticamente não existia. Isso porque esses governantes trabalhavam com técnicos nos postos chaves da administração pública e não políticos nomeados. E para tornar essa administração transparente havia o SNI – Serviço Nacional de Informações que  fazia uma varredura na vida profissional de cada servidor público, indicado para determinado cargo.  Assumia se fosse íntegro e capacitado. Nesse aspecto, testemunhamos um fato dessa instituição. Falando pessoalmente com um coronel de exército então diretor desse órgão em Brasília, a trabalho, e que posteriormente presidiu à Telebrasília, em sua sala, ele nos mostrou um ofício que estava encaminhando ao ex- presidente Figueiredo e nele estava um parecer sobre determinado executivo que deveria assumir um cargo importante num órgão público. Entre outras palavras o expediente dizia, “essa pessoa não é recomendada para esse cargo porque é suscetível à corrupção”

Daí então cortava-se o mal  pela raiz.

No governo do então presidente Ernesto Geisel, ganhamos uma licitação para produzir 2 filmes documentários em 35 mm para ser distribuído na época numa rede de cinemas em todo o país. Nesse período ainda não  existia o vídeo. Tínhamos que trabalhar com películas. Esses produções foram sobre 2 projetos do governo Federal no Centro-Oeste, intitulados-PRODEPAN – Programa do Desenvolvimento do Pantanal e PRODEGAN-Programa de Desenvolvimento da Grande Dourados. Todos no Mato Grosso. E, para iniciarmos os trabalhos com deslocamentos da equipe de filmagens tínhamos que receber do órgão responsável uma porcentagem de recursos para as despesas. E, havendo demora e tínhamos prazo para produzir e veicular  esses documentários, procuramos o responsável pela liberação desse erário. De sorte que, ele já estava com o processo  pronto e desculpou-nos pela demora, apontando para uma assinatura no processo do presidente Geisel e nos disse “ demorou porque nenhuma liberação de recursos sai do cofres públicos sem o visto o presidente, se ele suspeitar de corrupção, ele pessoalmente cancela à licitação. Daí então mantinha-se o lema, cortava-se o mal pela raiz. Fizemos o trabalho e veiculamos esses filmes.

Todos os ex-presidentes militares morreram sem fortunas e não deixaram grupos econômicos. O maior tocador de obras desses governos, o ex-ministro coronel Mário David Andreazza quando faleceu, conforme informações divulgadas, seus amigos tiveram que fazer uma “vaca” para seu enterro.


Vicente Vecci  edita Há 33 anos em Brasília-DF  o Jornal do Síndico – www.jornaldosindicobsb.com.br, e-mail. sindico@jornaldosindicobsb.com.br