Gama: Solidariedade do jiu-jítsu

A garotada tem aulas duas vezes por semana e não perde a oportunidade de treinar com os mestres: inspiração.

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Professores de luta criam associação com o objetivo de treinar crianças carentes do Gama e formar futuros campeões. Para participar das aulas gratuitas, além de fazer bonito no tatame, meninos e meninas precisam manter bom desempenho na escola. …

As noites de terças e quintas-feiras no Centro Comunitário do Gama Leste são diferentes. Nesses dias, o espaço ganha ares de academia. É lá que a Associação de Lutas Futuros Campeões, criada há dois anos pelo professor e advogados Bruno Souza Freitas, 38 anos, e pelo mestre de jiu-jítsu Eufrásio Santiago Nunes de Oliveira, 35, alimenta sonhos de muitas crianças.

Quando chegam ao local, meninos e meninas se apressam para cumprimentar os mestres e correm para o tatame para receber o treinamento. Há pouco mais de um ano, quando trocou as sapatatilhas de balé pelo quimono, Maira Carolina Aragão, 11 anos, se esforça para não faltar às aulas. “Comecei a fazer jiu-jítsu para aprender a me defender. Eu me sinto muito mais segura e me sinto acolhida aqui”, contou ao Correio, enquanto ajudava o irmão, um dos instrutores, a preparar a sala. Maira já é faixa cinza, a segunda na hierarquia da luta, e diz que pretende lutar até atingir a última graduação, “Vou fazer isso pelo resto da minha vida. Corro menos perigo se alguém tentar fazer alguma coisa comigo”, acredita.

O centro de lutas fica em uma das regiões mais perigosas da cidade, e a segurança é uma preocupação constante das famílias que vivem no local. Gabriel Alves Pereira, 12 anos, conta que, antes de começar a lutar, era encrenqueiro e se envolvia facilmente em conflitos. “Brigava muito na rua, tudo virava confusão. Hoje, estou mais tranquilo e, aos poucos, estou melhorando na escola”, afirma. A mãe do jovem, que quer ser lutador quando crescer, Tatiane Alves, 29, também vê avanços. “Ele aprendeu a ser mais companheiro, mais amigo. Recebe bons conselhos aqui e está mais calmo em casa”, afirma a secretária.

Assim como Tatiane, Gracilene Pereira, 33 anos, nota a melhora de comportamento dos filhos. A orientadora leva Matheus, 12, e Mariana Pereira, 9, ao centro desde o primeiro dia do projeto e acredita que a dupla está mais educada e disciplinada. “Eles não me respondem mais. Quando começam de malcriação, eu digo que vou contar para o professor e eles melhoram na hora”, conta, aos risos. Gracilene afirma que os filhos vão continuar nas aulas enquanto a iniciativa existir. “É uma bênção para essas crianças, elas têm um objetivo, saem das ruas”, completa.

Dois meninos que vão, em breve, participar de uma competição de lutas compartilham o nome e querem seguir carreiras que têm como principal objetivo proteger as pessoas. João Pedro Rodrigues e João Pedro Onorato Filho, os dois com 7 anos, pretendem ser policial e bombeiro, respectivamente. As crianças afirmam que a atividade preferida é lutar. “Eu aprendi que não posso brigar e xingar e preciso estudar todos os dias. Assim, posso continuar nas aulas”, afirma o aspirante a bombeiro. Tímida, a dupla esperava ansiosa o início das atividades na noite da última quinta-feira enquanto conversam com os amigos que fizeram nos treinos.

Atual campeão brasiliense de jiu-jitsu em sua faixa e categoria de peso, Danilo Isítio, 12 anos, começa a traçar uma trajetória nas competições. Em apenas um ano, conquistou o primeiro título e coloca a disciplina como um dos maiores ganhos do treinamento. Maduro, afirma que a educação é o valor mais importante na vida de qualquer criança. “Sem estudo, não dá para ser ninguém na vida. Precisa ter a cabeça boa, não entrar em brigas e, todo dia, pegar no caderno”, afirmou. 

O projeto

Idealizador do projeto Bruno Souza Freitas explica que a ideia surgiu do desejo dele e de alguns amigos de estender o acesso ao esporte. Eufrásio Santiago Nunes de Oliveira conta que, quando começou a lutar, recebeu uma bolsa de estudos e auxílio de um professor e sempre sonhou em devolver para a sociedade tudo o que conquistou com a luta. 

Foi assim que, em 2012, os dois criaram a associação para oferecer aulas gratuitas de jiu-jítsu para a meninada da comunidade. “É um esporte caro e, como sempre moramos aqui, vimos que essas crianças não tinham condições de praticar. O nosso foco é tirá-las da rua, afastá-las das drogas e do caminho errado”, afirma Bruno. O Gama foi escolhido também pela falta de opção de lazer. “Temos que ir onde é mais perigoso, aonde eles precisam. Sempre lutei aqui e queria ajudar essa cidade de alguma forma”, diz Santiago.

“É  um esporte caro e, como sempre moramos aqui, vimos que essas crianças não tinham condições de praticar. O nosso foco é tirá-las da rua”

Bruno Souza Freitas, professor de jiu-jítsu e advogado

Participe

Para mais informações sobre o projeto acesse http://alfc.com.br/ ou ligue para 8648-1846.

Fonte: Por AILIM CABRAL, Correio Braziliense – 26/07/2014 – – 22:40:40

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