Moradores transformam áreas abandonadas em hortas comunitárias

Os canteiros ajudam no resgate do solo, transformam os locais em práticas terapêuticas e oferecem uma abordagem pedagógica

Criada por Gabrielle Volpe, a horta da 114 Sul conta com a participação ativa de crianças, como Patrícia Uchoa

Ações de plantio, cuidado, colheita e consumo, antes exclusivas na área rural, agora se disseminam em meio ao movimento da capital. A prática da sustentabilidade transforma áreas urbanas de Brasília. Embaixo dos blocos, próximos às casas e nas esquinas de cidades fora do Plano Piloto, produtos orgânicos unem brasilienses em prol da chamada agricultura urbana. Espaços públicos, antes abandonados e malcuidados, viraram ponto de encontro e trabalho em conjunto. As hortas comunitárias no Distrito Federal ajudam no resgate do solo, transformam os locais em práticas terapêuticas e oferecem uma abordagem pedagógica. Tudo isso reunido a espécies de plantas, ervas, leguminosos e frutíferos pronto para ir à mesa. Qualquer pessoa da comunidade pode, gratuitamente, consumir os produtos.

No fim da Asa Norte, em uma área verde próximo ao Lago Paranoá, Alda Duarte, 42 anos, cuida com afinco das plantações de mudas. A horta comunitária surgiu com três canteiros iniciais, em 20 de dezembro do ano passado. Quase cinco meses depois, o local já conta com oito espaços de plantações. O grupo é formado por 30 voluntários que, ativamente, cuidam e frequentam o espaço. Do total, seis deles são agrônomos. A ideia surgiu da analista ambiental e consultora. Como ela já fazia o trabalho de jardinagem e paisagismo ornamental, pensou em construir uma área para plantação e levou a proposta aos demais moradores. “A intenção era fomentar a vida da comunidade por meio da horta sustentável. A proposta é revitalizar os espaços e unir a população em causas ambientais. Desde o surgimento da horta, cessou a ocupação de moradores de rua aqui, porque eles se sentem inibidos coma nossa presença”, contou.

Mãe de uma menina de 9 anos, Alda ressaltou a melhora do consumo de frutas e legumes após a horta comunitária. “O espaço contribui para a resiliência ambiental urbana e a segurança alimentar. É uma espécie de reeducação, porque as crianças começam a experimentar o verde. É um prazer colher aquilo que se planta, já que vivemos em um ambiente urbano”, acrescentou. Moradora da 216 Norte, Casandra Manes, 58, é uma das que participam ativamente do espaço. Ela ajuda a conservar o local e faz a limpeza voluntária quando caminha pelas manhãs. “Essa é a minha terapia de todos os dias. Ter esse espaço no meio da cidade é fantástico”, disse.

Engajamento

Existem, hoje, cerca de 20 hortas espalhadas pelo DF (veja quadro), segundo a Secretaria de Meio Ambiente (Sema). A Subsecretaria de Educação e Mobilização Socioambiental informou que o órgão apoia grupos de agricultura urbana em rodas de conversa, com objetivo de regularizar a Lei nº 4.772, de 24 de fevereiro de 2012. Ela estabelece diretrizes para as políticas de apoio à agricultura urbana e periurbana no DF. Além disso, a Sema ressaltou que tem se envolvido nas discussões para assegurar os espaços das hortas no DF. No fim da tarde, o perfume do alecrim, capim-santo e hortelã costuma invadir o ar. Beterraba, jiló, batata-doce, milho, cenoura, tomate e pimenta-de-cheiro compõem a maioria das hortas. As folhas verdes também pedem espaço. É o caso da alface, do agrião, da couve e do almeirão. Os temperos marcam presença: salsinha, manjericão, coentro e açafrão-da-terra estão entre os principais da lista. Por fim, maracujá, limão, acerola, mamão, banana e amora oferecem aos adeptos a felicidade de colher frutas no pé.

Fonte: Correio Braziliense – 19/05/2015 06:06